Casamento, Escolhas e Resort All Inclusive

Não sei se essa doença tem nome, mas sou meio neurótica com escolhas. Quero sempre fazer a melhor compra, pesquiso incansavelmente o melhor custo/benefício (meses, se necessário), examino as opções exaustivamente e mudo de opinião infinitas vezes até que o tempo se esgote e eu escolha quase no susto.

Sou do tipo que faz o garçom (e o marido) perder a paciência (especialmente na hora da sobremesa). E se eu pudesse contratar alguém para escolher por mim, eu o faria. Sério! Porque eu sofro, minha gente… Agonizo! É feio até de assistir.

Estranhamente, as escolhas que moldaram minha vida não foram muito ponderadas (acabei de perceber). Aliás, foram NADA ponderadas. Escolhi praticamente sem ver o menu. Tinha certeza de que lá não havia nada que me interessasse mais do que a vontade que trazia comigo.

Houve também escolhas pouco ponderadas motivadas por uma outra certeza: a de que não havia outra opção. Na verdade, sempre há opções, mas nem todas são compatíveis com o que entendemos ser inegociável.

(Foram essas as escolhas mais fáceis e mais difíceis da minha vida. Hoje, percebo.)

Mas não importa seu critério (ou falta dele). Toda escolha traz responsabilidades. Toda escolha é também uma renúncia. E o casamento não é diferente.

Não acredite na baboseira cinematográfica do “you complete me”. Ninguém nunca se sentirá completo por conta de um casamento. Você pode se sentir completo em um casamento, mas não por causa dele.

Ao optar pela vida a dois, renuncia-se à liberdade de viver a um. Ou a mil (mas um de cada vez pra não tumultuar. De vez em quando dois, pra fila andar… três, talvez? Ah, vai no gosto do freguês! Me digam vocês!).

Também não é confiável aquela (sa)fada madrinha da Cinderella (essa sim, merecia ter o nariz do Pinóquio), pois aquela história de viver “felizes para sempre” não é nem utópica! É delírio alucinógeno mesmo (a tal varinha mágica escondia um fumo arrumado. Certeza, gente)!

Felicidade plena e eterna não existe nem em Utopia, nem em resort all inclusive. Pois mesmo num mundo perfeito – sem guerras, fome ou pobreza – a vida continua sendo feita também de perdas. As renúncias compõem o outro lado da moeda de cada cara ou corôa que nos é imposto diariamente.

Cinquenta porcento da vida é o que renunciamos. Só que, nesse caso, quem perde, é também quem ganha.

Casamento – assim como resort all inclusive – não é para qualquer um. Há quem se sinta preso (mesmo com acomodações luxuosas e opções de lazer diversas). Há quem precise da liberdade de sair de casa com uma mochila nas costas e um destino incerto.

O importante em qualquer escolha é saber encarar as responsabilidades que vem junto com o prêmio. E o segredo de uma felicidade possível (isto é: alternadamente plena e nada eterna) é estar ciente do que se está perdendo, e ainda assim, preferir focar no que se está ganhando.

(E que conste nos autos [porque não quero merecer “troféu Pinóquio”]… a analogia do casamento com resort all inclusive foi a mais inadequada possível!)

Imagem

linhaAna Márcia Cordeiro

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2 pensamentos sobre “Casamento, Escolhas e Resort All Inclusive

  1. Aguardo seus textos ansiosamente, porque é sempre uma surpresa!

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