Charlatões

Charlatão é um contrabandista de si mesmo. (…) Às vezes a charlatanice dói muito.

Imiscui-se nos momentos mais graves. Dá uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda força. *

Vivemos tentando ser um modelo. De perfeição, de inteligência, de beleza, de educação, de bom gosto, de bom senso, de viver bem. Todos nós temos nossas próprias verdades sobre aquilo que acreditamos ser um modelo perfeito. A desculpa para os deslizes é a famosa frase “ninguém é perfeito” ou “que atirem a primeira pedra”, porque além de lidar constantemente com o insuportável julgamento alheio, há também o espelho que costuma ser cruel.

Todos nós somos charlatões em algum momento. Às vezes escondendo aquela vontade incontrolável de ouvir uma música brega ou assistir aquele filme pastelão, por exemplo. Há também a Coca Zero, as barrinhas de cereais, o iogurte natural, o adoçante, o chocolate light, o Mc Salad, a pizza de legumes… Deve dar menos barriga. Só não esqueçam que sexo, apesar de fazer bem à saúde, melhora a pele, o humor, perde calorias, porém, se não protegido devidamente, também dá barriga.

Já nos acostumamos o nos enganar o tempo todo. Às vezes não se é tão feliz… O coração dorme apertado, mas a consciência está tranqüila por ter feito algo certo. Daí no final da vida você tem uma coleção de atitudes certas, tentando lembrar um dia que talvez tenha sido mais feliz.

Ontem eu estava lembrando de alguns velhos amores. Alguns que não deram certo, e outros que deram, mas que não foram para sempre – como uma vez me disse uma fiel amiga.

Não me sinto charlatã em relação aos amores que tive. Para minha vida eu sempre acreditei que para tudo se tem jeito. Aquele amor que era muito mais novo… Não tem problema, isso não é tão importante – ou mais tarde compro um creme antissinais. Não tem emprego… Tudo bem, isso não é para sempre. Não tem carro… Tudo bem, ando de ônibus a vida inteira. Não tem dinheiro… Tudo bem, eu também não tenho. Não gosta das mesmas coisas que eu… Tudo bem, teremos sempre o que conversar. Mora longe… Tudo bem, a gente dá um jeitinho, espera… porque ele vale muito mais a pena do que qualquer alguém que more perto.

Por mais brega que isso possa parecer, eu sempre acredito que nada no mundo pode ser maior ou mais importante do que ser feliz. Por mais que tudo dê errado ou que pareça difícil, eu sempre acredito incondicionalmente no que sinto.

Eu só não acredito naquilo que me faz mal. Não naquilo que me faz infeliz às vezes.

Acredito em felicidade para sempre, e em momentos difíceis.

Mas nem todos acreditam no mesmo que eu, e me obrigam a ser o que não sou. Um amor traído me obriga a ser quem não sou. Má fé me obriga a ser quem não sou. Falsas promessas, mentiras e desamor me fazem ser quem não sou. Onde preciso desacreditar em tudo que acredito.

Dá uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda força.

Isso dói.

Mas às vezes é um mal necessário.

Pode ser que seja aquele tipo de dor como se arranca um dente sem anestesia…mas, se não arrancar, o dente vai doer para o resto da vida.

*Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

linhaDanielle Means

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