Um psiquiatra, um cardiologista e um lenço, por favor

Médico certamente não é a profissão mais odiada do mundo (provavelmente a mais odiada é dentista ou oficial de justiça… talvez funcionário de repartição pública (aqueles bem burocratas)… advogados também não recebem muitos chocolates na páscoa… e a julgar pelas notícias recentes, professor também não está com a popularidade em alta… mas, voltando ao médico…)

A maioria das pessoas evita ao máximo recorrer ao médico. Tentamos a tão falada automedicação, o “antes de casar, sara”, o remédio caseiro, a paciência e até a oração! Mas quando a dor fica insuportável, chegamos ao consultório e enxergamos do outro lado da mesa uma mistura de melhor amigo de infância com santo de devoção.

Faço parte dessa parcela da população. Prova disso é que nos últimos tempos compareci à apenas três consultas médicas. Três consultas em uns cinco anos (uma média inaceitável, no julgamento da minha mãe).

Mas um fenômeno interessante ocorreu nessas três ocasiões.

O ritual é sempre o mesmo. Na sala de espera, revejo mentalmente o que preciso falar – isso leva poucos minutos e a espera é muito maior do que isso. Levo sempre um livro, meu escudo contra conversas hipocondríacas e revistas de fofoca desatualizadas (e que fique claro que o problema é o fato de estarem desatualizadas). Finalmente o médico chama meu nome (às vezes chama Ana Maria, mas eu atendo, tô acostumada). Entro, sento e fico tensa. O artifício quebra-gelo é sempre o mesmo: “– E aí, Ana Mar(c)ia? O que está acontecendo?”.

É esta a senha para um verdadeiro show de horror.

A pergunta fica ecoando na minha cabeça, como se eu não soubesse que tipo de resposta ele está procurando. Fico confusa num nível Vanuza-cantando-hino-nacional, esqueço tudo o que ensaiei e vejo o mundo passar (num ritmo frenético de trailer de filme de ação) diante dos meus olhos, enquanto eles se enchem de lágrimas.

Tanta, mas tanta coisa emerge que eu transbordo.

São tantos os corações solitários, aflitos, e seus sussurros soam tão alto aos meus ouvidos.

Vejo os outros, sinto os outros, choro pelos outros, porque, no fundo, choro por mim. Quero encontra-los e pegá-los no colo, pois sei que o acalento materno alimenta a alma do filho e da mãe também.  Minha solidariedade com os corações aflitos é, na verdade, meu egoísmo, minha necessidade de me ver no outro, me segurar no colo e dizer que está tudo bem.

Não é sempre que um adulto pode se cuidar. Não é sempre que encontramos tempo, espaço ou privacidade para chorar nossas mazelas e as do mundo. E não é aconselhável deixar que uma angústia pessoal entre no local de trabalho. Acho que a consulta médica tem sido minha válvula de escape (e é claro que uma delas foi com um psiquiatra, antes que alguém me faça a sugestão).

Olho, vejo e reparo em tudo, seu Saramago*, mas me cego repetidamente para não sentir. Porque não há espaço para o mundo todo dentro de mim, não há tempo para o abraço (ou quando há o tempo, não há o abraço) e estou tentando salvar um pouco do meu melhor para quem eu amo e me ama de volta (e mesmo com eles estou sempre em falta).

O que acontece é que para dar conta de viver num mundo com tanta desordem, procuro (em vão) organizar o meu espírito.

Um lugar para cada coisa. Cada coisa em seu lugar.

Mas não tem jeito, doutor, meu coração carrega o mundo.

Imagem

* “Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara”
   “Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem”

José Saramago

linhaAna Márcia Cordeiro

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3 pensamentos sobre “Um psiquiatra, um cardiologista e um lenço, por favor

  1. Patrícia disse:

    Que maravilhoso!!! Para variar….ri muito!! O final foi surpreendente e muito bonito…PARABÉNS!!! Só poderia ser vc mesmo…vc é maravilhosa!!
    Patrícia Calmon

  2. Roberta disse:

    parece que foi escrito pra mim… (lágrimas nos olhos)

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