Naquela “estação”

OUTONO

O domingo no subúrbio ia se despedindo com cara de outono em Nova York. Menos pelo glamour, mais pelas folhas de amendoeiras voando nas ruas. A mesma frieza se estampava na face de Andréa e refletia indiferença no rosto duro de Ricardo. A casa estava minimamente arrumada – o máximo que aquele domingo ressentido pedia. Os dois a arrumaram sem combinar quem faria o quê e sem conversar amenidades no processo. Não havia música também, porque a playlist era sempre motivo para discussões que se encaminhavam como danças e que, não raro, remetiam ao sexo. E não havia sexo.

Um mês e 27 dias – Ricardo que não era brocha nem nada poderia dar a conta até dos segundos daquela abstinência que o agredia mais do que o outono lá fora. As crianças estavam naquela agitação tranquila que a presença dos pais em casa, na sala, assistindo TV e suas peripécias (simultaneamente) lhes proporcionava. Ricardo, incansável, aproveitou o momento comercial de margarina para tentar uma aproximação. Andréa olhou para ele com ternura, apesar da briga silenciosa da noite anterior.

Ela saíra com as amigas, aquelas com quem ele implicava, para um almoço inocente no sábado. Prometeu voltar às 16h30, em tempo para organizar a saída da família para um outro evento com vários amigos, todos casais. Ricardo disse QUATRO E MEIA, assim em caixa alta para que ficasse claro que ERA IMPORTANTE, que não poderiam atrasar. Andréa prometera, como sempre. E atrasou, como nunca. Às 19h quando chegou em casa para buscar Ricardo e as crianças encontrou os filhos surpreendentemente em ótimo estado e o marido absolutamente mudo. E assim fora durante todo o jantar e o caminho de volta.

No sofá, a aproximação de Ricardo foi resposta a uma mão perturbadoramente pousada no alto de sua coxa, mais cedo naquele domingo. De alguma forma, a imagem de Ricardo indiferente, e ainda assim transbordando ódio, fizera Andréa pensar em sexo, mas não o suficiente para vencer o cansaço daquele sábado, muito menos o medo de ser rejeitada como um cachorro de rua na porta do restaurante.

Estavam os dois assistindo TV, cada um em uma ponta do sofá. Ricardo se aproximou de Andréa, puxou suas pernas para o seu colo e deslizou a mão por toda a extensão da coxa, num movimento ascendente. Andréa o olhou e, sorrindo, disse: – Seja difícil, querido.

Ricardo se irritou com aquela instrução. Não saberia ser difícil. Que homem consegue ser difícil depois de um mês e vinte e sete dias?? Aquilo não era uma dica, era um enigma. E Ricardo nunca se interessou sequer por palavras cruzadas.

A instrução de Andréa foi uma tentativa de segurar aquele pensamento que o espetáculo de rancor e silêncio da noite anterior provocara. Queria também se certificar de que iria até o fim dessa vez, pois (ela sim) já havia brochado algumas vezes naquele mês e vinte e sete dias, e isso fizera aumentar mágoas e ressentimentos.

Mas os homens são fáceis. Andréa sabia que só precisaria de uma trepada inspirada para que toda aquela dureza se derretesse. Aquele domingo frio não estava ajudando.

“Seja difícil”. O enigma ecoava na cabeça de Ricardo. “Seja difícil”. Se ele encontrasse a resposta, poderia ter sua amante de volta. “Seja difícil, querido”. Havia uma condescendência naquele sorriso e naquele “querido” que lhe incomodava. Lembrou-se do atraso da noite anterior. Sentiu aquela fúria silenciosa voltar com mais força, pois sabia que nenhum atraso foi culpa sua. Nem o do jantar, nem o do sexo.

– Irresponsável – disse enquanto se levantava indo para o banho tocar sua punheta habitual.

Mais tarde a encontrou no quarto, lendo. Deitou-se a seu lado. Puxou conversa. Andréa explicou o que o enigma significava. Ricardo não entendeu e se irritou por ela não ter sido mais clara.

Aparentemente o Português é um idioma que tem muito em comum com o Venusiano, o que faz todos os homens acreditarem que entendem o que as mulheres dizem, mas por serem de Marte, acabam sempre como brasileiros em território argentino: perdidos em seu próprio “Portunhol”.

À noite se encontraram novamente no sofá. Os filhos estavam no escritório, absortos no computador em meio a jogos e vídeos. O sofá estava morno e a sala fria. Ricardo puxou as pernas de Andréa para seu colo novamente. Olhou desconsoladamente seus pés e beijou-lhe o dedão com uma devoção contida. Suspirou. Andréa viu aquela cena e pensou como não amar aquele homem. Pediu que fizesse de novo. Pediu depois que mordesse-lhe o dedão.

Em pleno outono, sentiu o calor do verão.

O sexo nunca foi tão quente. O outono nunca foi tão frio.

Mas a primavera voltou.

Imagem

linhaAna Márcia Cordeiro

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