O primeiro ano de casamento é para os fortes

Foto de David Jay

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Você pode pegar um texto escrito por alguém casado há mais de 50 anos ou por alguém que está casado ou mora junto há pouco menos de um ano, como é o meu caso, que, no fim (ou mesmo antes da conclusão do texto) você vai perceber que todos os autores sempre vão tentar te induzir ao mesmo raciocínio: não existe receita para um casamento feliz. Menos, é claro, aqueles autores que estão tentando te vender alguma “fórmula mágica” que, obviamente, não existe. Existem estratégias, sim. E isso, sem dúvidas, o tempo de convívio ajuda muito. Dizem que o primeiro ano é o mais desafiador – para não dizer infernal – de todos. Em minha defesa, devo dizer que isso é… bom, é a mais pura verdade.

Há alguns anos, saí de uma outra relação da qual não sobrevivi ao primeiro ano de convivência, apesar dos anos de namoro que antecederam àquela experiência. Teria sido traumático se estivéssemos falando de alguém com reações normais, que se traumatiza e nunca mais se permite passar por nada semelhante na vida. Mas a pessoa em questão sou eu e, felizmente, eu não aprendo. Digo felizmente porque é graças a essa característica que hoje vivo a sorte de um amor tranquilo. Ok, nem tão tranquilo assim, mas maravilhoso, apesar de todas as provações do primeiro ano de “casamento” (e as aspas ali no casamento só se justificam porque não é oficial, mas funciona como qualquer união estável, com ou sem papel passado).

Um casal que se propõe a ler livros do gênero “Casamento Blindado” não garante o sucesso, tampouco a blindagem da relação, bem como uma mulher ou um homem que adora ler e se junta com alguém que não tem o hábito da leitura – nem pretende ter, diga-se de passagem – não determina o fracasso do relacionamento. Nada disso faz muito sentido pra mim! Ora… como se o fato de um cara não ler Nietzsche ou nunca ter ouvido falar em Proust fosse fazer alguma diferença na hora do “vamu vê”, ou se o fato da moça gostar de ler Saramago e ser fã da Lispector a tornasse menos atraente. Se ainda fosse um Paulo Coelho, tudo bem, mas… como o gosto literário não está em questão aqui, voltemos a falar mal do casamento.

O que eu aprendi neste primeiro ano que completo de casada? Tantas coisas que daria para escrever um livro para vender fórmulas nada mágicas de sobrevivência aos primeiros doze meses de vida conjugal, mas a primeira e mais importante delas é que, acima de tudo e de todos, é preciso querer estar junto. E não basta que um queira, tem que ser os dois! É preciso que os dois queiram muito estar ali. Se essa vontade não for mútua e intensa, a casa cai. Porque, no princípio, os tijolos da casa estão se levantando devagar, a estrutura ainda não está suficientemente firme e é provável que uma parede ou outra se desmorone de quando em quando e que os dois precisem levantá-las juntos uma ou mais vezes. Portanto, tem que ter um bocado de disposição e habilidade.

Pegue duas pessoas com personalidades absolutamente diferentes, criadas de forma absurdamente distintas, quase dois seres extraterrestres que nem sabiam da existência de vida no planeta um do outro, agora coloque-os dentro da mesma casa. Faça-os dormirem e acordarem todos os dias juntos, dividirem tarefas e responsabilidades e faça-os entrarem em acordo na mais perfeita ordem e harmonia sem nunca, jamais, sob hipótese alguma entrarem em desavença. Isso! Agora escreva um conto de fadas!

Na vida real, eu experimentei morar com meu marido num cubículo por quase todo o período desse primeiro ano, de modo que nem mesmo a briga mais séria nos impedia de ficarmos grudados, uma vez que nosso antigo apartamento tinha um único cômodo e éramos obrigados a nos suportar mesmo nos dias menos propícios ao amor e à luxúria. Foi uma experiência e tanto! Quase uma prova de fogo e nós sobrevivemos. Nada garante que sobreviveremos as próximas provas que virão, pois sabemos que virão. Sempre virão. A única certeza que nós temos é que continuamos dispostos e que a vontade de permanecermos juntos e tocarmos em frente só faz crescer. E isso pode até parecer pouco, mas não é.

Num mundo repleto de ofertas, com tantos peitos e bundas durinhas por aí, sexo fácil a cada esquina, prazer momentâneo, falta de compromisso, o que significa diretamente ausência de comprometimento, de cobrança e satisfação para poder fazer o que bem entender sem qualquer tipo de interferência e/ou opinião alheia, escolher permanecer ao lado de alguém por livre e espontânea vontade é uma coisa muito linda, gente!

Mas a gente continua sedento por escutar belíssimas histórias de amor, não é? Então toma essas:

Era uma vez um casal que tinha uma infiltração no teto do quarto. A esposa ia lá e pedia para o marido subir no telhado e consertar a telha quebrada, o marido prometia que ia subir, mas nunca subia, veio a chuva forte e formou-se uma goteira enorme bem em cima da cama do casal. No dia seguinte, a esposa chamou o pedreiro, que resolveu o problema em cinco minutos.

Era uma vez uma esposa consumista. O marido pedia incansavelmente para ela comprar menos sapatos, mas ela não se controlava e cada dia chegava em casa com um par de sapatos novos. Um dia ele ligou para o banco e, em cinco minutos, cancelou o cartão de crédito que eles tinham na conta conjunta.

E eles viveram felizes para sempre.

Seria lindo se antes de chamar o pedreiro, a mulher não tivesse cobrado uma atitude do marido uma centena de vezes até que ele sentisse vontade de subir no telhado – não para consertar a telha, mas para se jogar lá de cima, e se o marido, por sua vez, antes de ter percebido a compulsão da mulher e tomado as rédeas da situação, não tivesse reclamado exaustivamente com ela, a ponto de obrigá-la a comprar sapatos escondida, como quem comete uma infidelidade . E seria mais lindo ainda se nenhuma dessas pequenas coisas do dia-a-dia não enlouquecessem os casais pouco a pouco. Mas enlouquecem, e levam ao extremo da separação, por isso a vontade de estar junto tem que ser tamanha para superar os minúsculos suicídios diários que cometemos contra a mesma relação que desejamos com tanto afinco que dê certo.

Defeitos todos temos. E todo defeito, por menor que seja, de perto, pode se tornar um abismo. O desafio é não deixar que os abismos se tornem tantos e tão grandes a ponto do afastamento não permitir que a gente consiga criar e atravessar as pontes que nos aproximam. Mas falar é fácil, né? Na teoria, metáforas com abismos e pontes é uma graça. Na prática, o defeito do outro tá muito mais para um buraco negro, é infinitamente mais difícil de lidar e, pra ser muito franca, as vantagens de estar numa relação precisam ser bem razoáveis para compensar.

O que faz a engenharia da coisa toda funcionar é muito simples. E, se a gente parar pra observar bem, é a mesma engenharia complexa que faz tudo desandar também. O problema, geralmente está nas peças, ou seja, em nós.

Por aqui os sinais de que as peças andam minimamente ajustadas é ver o sorriso largo que ele dá quando entra em casa e percebe que eu já cheguei do trabalho. É ouví-lo se queixando todas as noites de como o tempo passou depressa só porque a gente finalmente se encontrou depois de mais um dia daqueles. É perder a hora todas as manhãs porque vai ficando cada vez mais difícil conseguir nos desgrudar. É, também, ter a oportunidade de dizer “eu te avisei” e optar pelo silêncio, por mais tentador que seja.

E a gente vai vivendo junto e vai experimentando as dores e as delícias de amar, aprender e viver o outro.

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4 pensamentos sobre “O primeiro ano de casamento é para os fortes

  1. Marina disse:

    É assim mesmo, desejo que dure muito tempo, porque o ‘para sempre’ só acontece com poucos, e que vocês estejam entre eles! :)

  2. Teu casamento é oficial, seja lá o que isso queira dizer, já que você se declara casada. Acho que faz parte do tornar-se interessante para o outro o aspecto cultural sim. Talvez, não sei, seja fundamental uma proximidade intelectual, de gosto ou de sincronia para que as remadas sejam mais fáceis, ou menos desconfortáveis. E gostar ou não do Paulo Coelho pode ser definitivo. De qualquer modo, declaro minha torcida pelo casal, pelo casamento e pela fortaleza que o amor merece para viver plenamente a experiência que propõe.

  3. “Casada” há um pouco mais do que um ano, compartilho toooodas as suas observações, amiga. É um texto totalmente “faço-minhas”!

  4. Marta disse:

    Gostei muito deste texto :) passando fases menos boas neste primeiro ano, é bom ler e saber das experiencias de outras pessoas e saber que nao somos unicos!

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