Excesso de amor não faz mal à ninguém

“Será que agi certo?”, “respondi uma pergunta quando deveria calar?”, “fui muito rígido – ou muito permissivo?”, “deveria estabelecer mais regras?”, “pequei por não ter obrigado a fazer determinada tarefa?’, “o castigo foi a melhor alternativa?”. Educar uma criança é uma responsabilidade enorme e, não por acaso, os pais convivem com a culpa, insegurança, incerteza e dúvida. E acho isso ótimo.

Questionar as próprias atitudes é um legítimo ato de humildade. É repensar a maneira como foi educado e avaliar se ainda cabe aos dias atuais. Pessoas criadas com muita rigidez talvez desejem criar os filhos com mais leveza. Filhos de pais autoritários talvez queiram uma convivência mais democrática. Pessoas que tiveram pouca atenção talvez queiram ser mais presentes. Outras que tiveram acesso a muitos bens materiais talvez queiram oferecer uma infância mais simples aos pequenos.

Não há receitas, fórmulas ou dicas infalíveis para ser pais incríveis. Mas, ainda assim, arrisco a dar um conselho: não economize amor. Não deixe de demonstrar afeto, dizer eu te amo, abraçar, acolher, elogiar, olhar nos olhos da sua criança, por menor que ela seja, e dizer o quanto ela é importante, especial e única. Amor não faz mal à ninguém.

Constantemente ouço críticas em relação a pais que escutam seus filhos, procuram entende-los, fazem suas vontades quando possível e demonstram afeto. “Essa criança vai ficar mimada”, dizem eles. Mas o que é mimo senão cuidado, carinho e atenção? E não é disso que as crianças precisam?

Quer saber? Mimem seus filhos. Façam a comida que eles gostam, brinquem juntos, deixe o dever de casa para depois, leia a história pela décima vez, assista o mesmo filme pela milésima. Crianças mimadas serão adultos que não sabem lidar com a frustração, alegam alguns. Mas a verdade é que não conheço ninguém que saiba. Ninguém se prepara para a frustração, porque cada um vai se frustrar por algum motivo, não importa a idade. E terapeutas estão aí para ajudar as pessoas a lidar com tudo isso no futuro.

A infância não tem que ser treino para a guerra nem estágio para situações difíceis e desconfortáveis. Até porque, uma criança criada na base do medo, dor, castigo, insegurança e gritaria crescerá acreditando que essa é a maneira correta de agir, se comportar e se posicionar diante da vida: de maneira amarga, desconfiada, agressiva.

Os pais devem dizer não quando necessário, corrigir condutas inoportunas, cobrar responsabilidades, exigir respeito, mostrar que crianças não têm sempre razão, ensinar a dividir, ouvir os outros, a ser tolerante. Mas tudo isso pode ser feito com amor. Com abraço e carinho. Já vi muita gente irritada com filhos irrequietos e afeitos a gritarias, sendo eles pessoas que não sabem conversar a não ser por gritos.

Não adianta pedir calma a uma criança se você vive nervoso. Não adianta pedir para criança escutar se você não escuta. Não adianta ensinar a dizer a verdade se você mente. Ou pior: pede que a criança omita informações ou minta para outras pessoas. Não adianta dizer que ela precisa respeitar regras se você desrespeita muitas. Não adianta falar de pontualidade se você vive atrasado.

Ou seja: seu melhor discurso não vale nada se seu comportamento é exatamente o exemplo contrário de tudo que prega. Não existem pessoas perfeitas, claro. E pais são pessoas, não super-heróis. Mas são pais melhores aqueles que tentam a cada dia ser um pouco melhor como gente, demonstram suas fraquezas e compreendem que mesmo com seus próprios filhos eles podem aprender alguma coisa.

Crianças são crianças. Precisam aprender a esperar, saber que não vão ter todas as vontades satisfeitas, que nem sempre têm razão, que os pais não podem dar tudo que pedem, que a rotina deve ser respeitada, que as tarefas devem ser feitas e que não mandam na casa e nos adultos. Mas dá para ensinar tudo isso com amor, carinho e atenção. E principalmente: ouvindo o que a criança tem a dizer.

O tempo passa muito rápido. Mal nos damos conta os filhos estão adultos. Portanto não perca tempo de convívio impondo uma rigidez desnecessária. Abrace quando o choro da criança vier, vá na escola saber exatamente o que aconteceu quando o filho relatar um problema, não julgue perda de tempo assistir um filme infantil, segure na mão quando ele sentir medo, não mande engolir o chore nem parar de chorar. Demonstrar sentimentos é saudável e faz bem à saúde. Física e mental.

Se, fatalmente, pais cometerão erros na educação de seus filhos, que errem amando e não deixando dúvidas de que seus filhos são amados e importantes.

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Um pensamento sobre “Excesso de amor não faz mal à ninguém

  1. […] publicada no Amor Crônico em 17 de dezembro de […]

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