Arquivo do autor:Ana Márcia Cordeiro

Destrua este diário!

Querido Diário,

Desculpe esse contato súbito, inesperado e num horário tão indecente. Acho bastante desagradável ficar séculos sem notícias de uma pessoa e ela reaparecer, de repente, verborrágica, solicitando atenção exclusiva, geralmente num horário profundamente impróprio. Entendo sua irritação, se houver, e compartilho do sentimento, visto-quê me acordaram cedo (no meu único dia de folga). Resolvi, então, dar prosseguimento ao círculo do ódio matutino e você foi o escolhido. Atrapalho?

Aliás, lembra-se de mim? Há vinte anos nos encontrávamos esporadicamente e conversávamos sobre o pouco que acontecia na minha vida e o muito que eu desejava que acontecesse. Você, com sua fechadura que qualquer palito de dentes abria. Eu, sempre munida de palito de dentes, porque vivia perdendo as suas chaves.

Vou entender seu silêncio como sim – você se lembra.

É que imagino que um objeto inanimado com capacidade de ser interlocutor de inúmeros falsos diálogos, será também capaz de ter consciência e memória – mesmo que esse objeto-propriamente-dito tenha se perdido há vários anos. (Nada disso faz o menor sentido, eu sei, mas vai ser assim, porque sim, porque eu quero, e estou dizendo que assim será.)

És agora, Querido Diário (e sempre fostes, na verdade) um tipo de entidade etérea que me acompanhou todos esses anos, apesar da minha total indiferença. Você não só se lembra de mim, como esteve sempre me vigiando em silêncio – esse artifício vai nos poupar um mini-flash-back-mega-plus-gigante que te faria entender como cheguei até aqui; e como esse aqui é diferente do aqui de antes, mesmo sendo geograficamente o mesmo aqui de sempre. Serás também capaz de entender que com todas as mudanças que sucederam eu pareço não ser mais a mesma, mas às vezes parece que sempre serei.

Querido Diário, já que estamos aqui nesse momento íntimo, eu aproveito para confessar que ultimamente tenho me entregado a prazeres pouco edificantes. Isso não é nenhuma novidade, eu sei. Aos catorze eu praticamente só fazia isso. Mas é que para uma adulta semi-responsável, profissional engajada, MÃE, isso tem uma gravidade muito maior, entende? Eu devia estar usando meu escasso tempo livre para ler, ler e ler – o prazer mais edificante que conheço. No entanto, tenho me perdido rolando para cima e para baixo a página do Facebook, curtindo piadinhas infames, discutindo política (ou melhor, esculhambando a política), inundando a timeline alheia com links sobre os candidatos à presidência. A Internet, Querido Diário, é um furacão silencioso que suga vorazmente o nosso tempo – e o olho desse furacão só pode ser o Facebook (se bem que cu, seria mais apropriado). Tenho também usado boa parte desse pouco tempo livre para praticar sexo com meu marido (o que é absolutamente compreensível e irrelevante. Mas na época em que nos falávamos periodicamente não acontecia nada nesse sentido, então quis só ter a satisfação de te contar).

Mas eu te invoquei, aqui hoje, pelos poderes de Greyskull, para uma missão bastante específica.

Querido Diário, não me leve a mal, mas não há no universo conhecido uma escrita mais abobalhada do que esse gênero “querido-diário” (e ele tem se multiplicado no mercado editorial. Parabéns, você deve estar orgulhoso. Eu não estaria, mas… se você está, parabéns pra você, né). Você deve estar se perguntando como eu posso odiar e, ainda assim, estar aqui justamente fazendo uso disso. Você vai entender mais a frente.

Há alguns anos descobri que tenho enorme adoração pela escrita. Você não deve ter percebido vinte anos atrás. Nem eu percebi na época. Não teríamos como perceber, na verdade. É que eu sou da era da informática, mesmo tendo nascido antes de os PC’s existirem (ou pelo menos antes de existir dinheiro na minha casa para que essas máquinas aqui existissem). Escrever no papel sempre foi um exercício bastante doloroso, por isso nossa relação sempre teve tantos hiatos. Odeio escrever na tua carne! Essa quase impossibilidade de fazer e refazer um texto sem o trabalho braçal de apagar e redesenhar as letrinhas todas, uma a uma… Aff… Me faz sentir uma prisioneira quebrando pedras!

(Todos os gênios escritores da História que não precisaram de um editor de textos para tecer suas obras primas reviraram-se em seus túmulos agora. Quase um “nado sincronizado”!) Eu só consigo pensar que esse trabalho era um verdadeiro ato heróico e me sinto grata por eles não terem sido preguiçosos como eu. Aliás, essa minha preguiça tamanha seja a responsável por eu ser uma escritora [tosse para sinalizar incredulidade] ainda mais medíocre do que seria se tivesse um pouco mais de tenacidade.)

Fato é, Diário, que essa defasagem tecnológica me fez perder uns dez anos na descoberta do amor pela escrita (e, convenhamos, se eu tivesse começado a praticar dez anos antes não estaríamos aqui hoje com um texto tão sofrível).

Descobrindo esse amor, cheguei a publicar umas coisinhas por aí, você deve ter acompanhado, nada muito pretensioso. Quatro malucas se atiraram no meu caminho e esse encontro me permitiu ver certa (in)utilidade no meu humor auto-depreciativo (finalmente, depois de tantos anos de experiência!). Me diverti horrores escrevendo com elas sobre… (bem, nunca é fácil explicar a temática… vou tentar ser direta e arrancar esse band-aid dizendo apenas…) sobre as MERDAS que a gente faz na vida quando está apaixonada.

De lá para cá o amadurecimento foi inevitável, por isso passamos a falar do amor de uma forma menos leviana. Foi uma oportunidade de começar a, talvez, quem sabe, me tornar uma escritora de verdade (ilusões, quem não as tem, né mermo?). Até fiquei feliz em ver alguma evolução nas minhas crônicas; tive esperanças de que esse processo continuasse, no entanto, subitamente a fonte secou. É aí que entra você, Q.D.

Veja bem, estou aqui apelando para algo que eu abomino. (Desculpa a sinceridade, mas você aguenta. Aguentou aquela minha fase das verdades absolutas que só um adolescente sabe atirar. Você, minha mãe e alguns poucos bravos amigos. Aproveito a oportunidade para agradecer a paciência)

Está com a sensação de que te fiz reencarnar nessas linhas eletrônicas só para te ofender, né não? Não era isso… Desculpa… Eu quero mesmo é te pedir ajuda. Minha esperança é que esse contato nosso seja um canto da sereia, que atraia de volta as palavras, novas palavras, novos arranjos que andam fugindo de mim enquanto eu me escondo delas. Quem sabe, voltando à forma mais elementar da escrita-burráldica-adolescente-feminina eu consiga voltar a escrever, quiçá, evoluir, sair um pouco da mediocridade.

Espero que você esteja disponível e disposto a ser novamente meu interlocutor inanimado. Tenho certeza de que nossa relação vai melhorar, agora que você não está mais encarnado num bloquinho tipo papel de carta.

E olha… aquele negócio de te abrir com palito de dentes… Não foi legal, hoje percebo.

Não era falta de consideração, sabe… Eu perdia sua chave como perco tudo até hoje (a do carro eu perco e acho todos os dias!). Não era por mal… Mas nunca é, né? E mesmo assim a gente erra e magoa mesmo as pessoas mais queridas.

Não era (reitero) falta de consideração: era descuido meu, falta de atenção… (Se bem que eu aprendi no Mulé Burra que é tudo a mesma bosta… )

Bom, como você pode ver, não me emendei ainda. Mas agora, pelo menos, estou tentando.

Vamos nos falando, ok?

:-*

Ana Márcia Cordeiro

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Sobre lacraias e orangotangos

Tinha pouco mais de três anos de idade quando resolvi ir ao banheiro sozinha no meio da noite, absolutamente ciente de que não alcançaria nenhum interruptor de luz no longo trajeto. Levantei, saí do quarto, atravessei o corredor, abri a porta do banheiro, abaixei a calcinha, alcancei o vaso e liberei o fluxo, tudo isso sem me importar com a escuridão. Meu pai – que é quem conta a história – diz que acompanhou todo o processo, acreditando que eu pediria socorro em algum momento. O pedido não ocorreu. O silêncio da noite continuou intacto por alguns minutos, até que meu pai, ciente de que criança e silêncio geralmente não combinam, foi verificar que passava.

Papai conta que eu não estava fazendo merda (nem dentro, nem fora do vaso), mas que sua ida ao banheiro foi providencial.

Reza a lenda que eu era uma menininha bem bonitinha (vamos crer, por mais que o presente trabalhe contra), então imaginem a cena singela de uma “pré-criancinha” educadamente sentada no vaso, cotovelos apoiados nos joelhos, mãos sustentando o rosto e uma carinha de quem está longe, perdida nos próprios pensamentos. A ação começa quando meu pai acende a luz e vê a cena singela, mas percebe que não estávamos sozinhos: uma lacraia gigante serpenteava muito perto dos meus pezinhos que mal tocavam o chão.

É claro que o pobre aracnídeo sucumbiu à fúria do meu pai zeloso. A pequena eu, no entanto, nem se abalou. Nem com a lacraia, nem com o escuro, nem com o susto do raiá que papai gritou antes de acertar o chinelo na criatura malévola. Terminado o embate e o xixi, vesti a roupa e voltei para a cama da mesma forma que saí dela. E desde então meu pai conta essa história para ilustrar o fato de que eu nunca tive medo de nada.

Nunca tive medo de me afogar, por exemplo. Aprendi a nadar sem bóias numa piscina de adultos aos cinco anos e por conta própria. Aos sete quase atravessei uma lagoa (com meu irmão de nove), para desespero do meu pai – que por não saber nadar, só pode ficar gritando lá da areia por nós e pela minha mãe, essa sim, exímia nadadora na modalidade cachorra louca buscando as crias.

Andei de montanha russa tão logo alcancei a altura mínima. Assisti Brinquedo Assassino e peguei um medo sinistro do meu boneco do Fofão (que aliás, saibam vocês, tinha mesmo um punhal de plástico dando sustentação àquela cabeça enorme. Eu abri e vi!). Mas quando Brinquedo Assassino 2 foi lançado, eu já havia superado o medo, assistindo a essa e outras sequências do Chuck.

Meu irmão do meio diversas vezes pediu o “reforço” da caçula aqui, para verificar ruídos irreconhecíveis que ecoavam pela nossa casa tarde da noite. E eu ia com a maior cara de “tô tranquilia, tenho certeza que não é nada”. Ia na frente inclusive, atendendo a um emaranhado raciocínio “logístico” que ele resumia com a frase “vai na frente que eu te protejo” – expressão que até hoje usamos na família para designar cagaço mal disfarçado.

Outro dia encontrei uma foto tão antiga quanto minúscula, daquelas que vinham em um “micro monóculo” (quem lembra?). Com algum esforço se vê na foto, meu irmão, minha tia, eu e um orangotango.

(Isso mesmo, um orangotango)

A foto quase insólita foi tirada numa ida ao circo. Durante o intervalo do espetáculo, um dos astros – o orangotango, claro – passeava pela arquibancada e tirava foto com quem se interessasse em pagar uma pequena fortuna para levar o souvenir. Meu irmão (aquele do vai na frente), não queria tirar foto, ficou nervoso, ameaçou correr quando o artista se aproximou, por fim se acalmou e se posicionou na extremidade oposta, por pouco não ficando fora da foto. Eu, por outro lado, posei ao lado do bichinho simpático, com um sorriso tenso, rosto virado para frente, e olhos (quase não se percebe na foto minúscula, mas eu lembro bem) esbugalhados e entortados na direção do animal (não o meu irmão, o da outra ponta). Porque, né… não custa nada ficar de olho… vai que o bicho resolve me arrancar os tão queridos cachinhos… (se bem que esse risco eu também corria com meu irmão). Não contei pra ninguém, mas só de ver os olhos entortados lembrei que tive medo sim e não foi pouco.

Mais tarde (beeeemmm mais tarde) na minha vida dei outras provas de coragem. Me internei para o parto dos meus filhos com invejável serenidade e passei por um assalto grávida de nove meses com “sangue de barata” suficiente para não entrar em trabalho de parto. Para meu pai (que tem medo de cachorro, elevador, avião, barco, Ponte Rio-Niterói, quaisquer procedimentos médicos AND tempestades) basicamente, eu vivo confirmando o meu próprio mito.

Infelizmente não tenho mais aquela serenidade diante de lacraias e bichos escrotos em geral – quase tive derrame cerebral umas três vezes na vida com aparições de ratos e ataques de uma lagartixa psicopata (nem pergunte). Mas também não me paraliso diante dessas ameaças.

Não me interesso mais por filmes de terror porque aprendi com meu pai que os assuntos sobrenaturais estão na categoria “prefiro respeitar o que eu não entendo ou conheço” (o que provavelmente é um “vai na frente que eu te protejo” só que mais digno, filosófico, elaborado, mas, acima de tudo, um ensinamento válido).

Vale ressaltar que também não conheço nada sobre alienígenas (e pretendo continuar assim), modos-que se alguém fizer qualquer proposta no campo semântico de “vamos até aquele bosque verificar luzes estranhas?” eu me verei obrigada a responder um vamos sim, mas vai na frente que eu te protejo.

Para qualquer criança, o escuro não parece muito convidativo, e pra mim isso não foi diferente. Pouco convidativo, sim, mas também desafiador. Lembro que eu sentia enorme satisfação em enfrentar esse barato que o medo dá. O episódio da lacraia notívaga não foi o único, o do orangotango fotogênico muito menos.

Filhos são um capítulo a parte. Os medos que temos por eles são tão mais imensos quanto poderosos. Não duvide de nada – absolutamente nada! – vindo de uma mãe aflita.

A verdade é que o medo é tão simplesmente um mecanismo de sobrevivência. Sem ele morreríamos cedo, possivelmente colocando nossa espécie em perigo de extinção.

Por outro lado, viver com medo é viver tão pouco, não é mesmo? Não em termos de tempo cronológico, mas em quantidade de experiências.

Meu sogro, que também tem medo de avião e barco (informação irrelevante, mas se entreguei meu próprio pai, não poderia deixar o outro sair ileso) diz que o contrário do medo não é a coragem. (Coragem, acho eu, é ir com medo mesmo, fazer xixi no escuro.) Sogro diz que o contrário do medo é a fé (não necessariamente religiosa).

Esses corôas são mesmo uns sábios, né mesmo?

Tenhamos respeito por tudo o que ignoramos. Tenhamos o medo que vem dentro da coragem. Tenhamos fé de que apesar dos perigos, vai ficar tudo bem.

E que venha o nosso próximo orangotango.

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Ana Márcia Cordeiro

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Sobre desertos e oásis

Estou em crise, leitores, mas isso não é – a priori – problema de vocês. (Por favor não se sintam ofendidos, estamos trabalhando apenas com a verdade dos fatos aqui hoje.)

Uma crise existencial, de identidade, de meia idade, não sei. O que sei é que pela primeira vez na história das minhas faculdades mentais estou vislumbrando o futuro e isso me deixa confusa.

Não se trata de tentar uma carreira como sucessora de Mãe Dinah, muito menos de ter recebido um visitante misterioso (estranhamente parecido comigo mesma só que mais velha) que teria me presenteado com um almanaque esportivo dos próximos trinta anos (prevendo, claro, o Mengão sendo campeão direto e o Vasco, adivinha?, sendo vice).

Estou vendo apenas o meu futuro (e os leitores com clarividência já devem ter percebido que não estou curtindo a paisagem).

Nunca tive medo do escuro, de altura, ou do mar, mas essa visão do futuro está me assombrando as calcinhas há quase um mês. Tenho crises de ansiedade, choro, falta de ar, respiração acelerada. Procuro um saco de papel para respirar dentro, na falta de um, respiro na sacola de plástico do Guanabara (o que não me acalma porque lembro que a geladeira está metade vazia).

Aliás vejo tudo metade vazio ou ainda pior: absolutamente deserto. Mas, tipo, deserto padrão Fifa. Deserto do Saara mesmo. Desconfortável, poeirento, quente de dia, frio de noite e sem ninguém pra conversar.

Nessas horas o marido/namorado/noivo/rolo/rola há de ser um oásis, né mermo?

Difícil matar uma sede que não se sabe de quê. E não há quem possa te proteger do deserto que carregas contigo.

Entendo que algumas jornadas devemos percorrer sozinhos. O prolema é que só de cogitar uma ida ao cinema sem companhia eu já fico visivelmente desesperada. Imagina, então, o meu estado psicológico no momento.

Vamos pensar positivo e acreditar que o sinal do 3G pega bem no Saara. Quer dizer: vamos apelar para os amigos. Vejamos quem será a vítima…

Contatos… Amigos… A lista é curta, metade eu não vejo há anos, dos que vi recentemente – e seja generoso nesse conceito -, quase todos eu dei um jeitinho mágico de afastar. (Abre-se um portal onde me vejo no futuro… Velha… Sozinha…) Calma, Ana Márcia. (Triste…) Calma, respira. (Talvez até um pouco amarga…) Calma é o caralho! Cadê minha sacola do Guanabara???

Nunca fui nostálgica. Não sinto saudades da infância, da adolescência, da faculdade. Não pegaria o Delorian para voltar no tempo. Se hoje é o que tem pra hoje, pra mim tá beleza. Vivo demais no presente e sempre achei que isso fosse uma qualidade. O problema dessa minha existência é que quando o futuro assusta e o presente é incerto, fico sem ter quem me acolha.

E agora? E a crise? E o deserto? Quem poderá nos defender? Deus é uma boa alternativa sempre e em todas as suas formas, mas eu precisava de alguém que interagisse de forma um pouco mais verbal. Quem mais eu tenho nessa vida…?

Filhos? Não… Preciso poupá-los enquanto crianças… Minha família é longeva, de modo que devo precisar, em algum momento, de ajuda para banhar as pelancas e limpar minha própria bunda (quem melhor que os filhos para retribuir esse favor?). E quanto aos irmãos? Dá não. Estão todos acostumados a ignorar mimimi de irmã caçula (e eu fazia MUITO mimimi).

Vamos tentar o marido de novo. Tu, tu, tu, tá ocupado. Precisando ficar sozinho. Descansando a cabeça de um trabalho física e mentalmente exaustivo. Que marca de mulher eu seria se não respeitasse isso, né mermo? Tranquilo (só não vem depois querer companhia da cintura pra baixo. Huiahuiahuia).

Além do mais, você pode até ser princesa, mas tem que ser capaz de se salvar sozinha.

Hoje não tem marido, não tem amigo, não tem família. Dos olhos pra dentro me sinto irremediavelmente só, e essa sensação faz aquele vislumbre do futuro parecer inescapável. Agora sim, é a hora perfeita para entrar em pânico e ainda escrever uma crônica verborrágica pouco adequada à proposta do veículo que pretende publicá-la.

Mas leitor, veja bem… (Aliás, péra. Reparou que tá rolando um surto de conversar com vocês por aqui? Tudo maluca, repara não. Vocês estão apenas sendo usados para disfarçar essa coisa de falar sozinha. Sociedade não aceita bem, sabe cumé… Se a gente insiste vem logo um tio parrudo de jaleco branco.)

Mas então, vocês sabem que eu não costumo deixá-los ir sem um encerramento, uma moral da história. Preparados?

Nenhum homem é uma ilha e nenhum parceiro amoroso será sempre seu oásis.

Se não quer atravessar o deserto sozinho, tenha amigos e saiba mantê-los. Com sorte eles serão sua caravana.

Taí o máximo de amor que consegui hoje.

Perdoem essa quase velha, quase amarga, carente até os últimos cabelos brancos.

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Ana Márcia Cordeiro

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Senta que lá vem a DR…

Primeiramente, HOMENS CABRA MACHO DO MEU BRASIL VARONIL… antes de proferir qualquer outro absurdo, preciso proferir este: eu vos amo! De verdade! O absurdo da declaração é o absurdo do próprio amor, de sua própria natureza. Porque de um modo geral não é (ou não deveria ser) natural amar aquilo que mais nos enlouquece.

Preciso que vocês estejam convencidos do meu amor por vocês para que possamos ter uma conversa aberta, sem paus (hein?) e pedras e travas da chuteira a mostra. Xô pensar num jeito de vos convencer… Alguma analogia do universo masculino que seja mais universal do que as metáforas futebolísticas (tem um cara lá na quinta fileira que não entendeu as “travas da chuteira” até agora)… Algo que me permita atingir o maior público masculino possível para convencê-los da pureza do meu coração.

Ah! Já sei! Tenham em mente que eu disse que AMO VOCÊS e que NÃO ESTOU TENTANDO COMER NINGUÉM!!! Hã?? HÃ???? Que tal??? Serião, o meu amor, viu?

CALMA. TÔ BRINCANDO.

Mas é verdade. Eu os amo, no geral. E amo especificamente aquele com o qual sou casada, claro. Amo-o com todas as suas nuances de masculinidade – amo até aquelas que odeio (só não sei se as odeio mais do que amo). Nosso casamento me deu dois outros representantes da espécie que eu simplesmente amo até morrer (e eles tornam minha vida tão… digamos… interessante… que uma vez por semana eu penso que, de fato, vou morrer… infartada)!

Antes desses três eu já amava, amo e sempre amarei o meu pai. Ainda tenho dois irmãos com os quais cresci e que eu me lembro bem de não amar, apesar de todos os discursos da minha mãe. Mas aprendi a amá-los, sobretudo agora que não moramos sob o mesmo teto, não dividimos a tv da sala, o último pacote de biscoito, o único aparelho de vídeo-cassete.

Não bastasse tudo isso (e talvez seja por tudo isso…), sempre me senti à vontade em grupos masculinos; sempre tive mais amigos do que amigas – o que já me fez questionar a lealdade feminina, mas esse é outro assunto. Com os amigos homens aprendi a amar o senso de humor masculino – aquele nada rebuscado e pouco sutil (por isso mesmo tão divertido), sempre de prontidão pra zoar um bom amigo. Aprendi também o valor de uma boa sequência de ação Hollywoodiana.

Mas o que eu mais amo em qualquer homem que já amei é a infinita capacidade de simplificar. Até Física Quântica eles resumem e simplificam. Guerras, religião, bolsa de valores, audiência da tv aberta, nada é mistério para os homens.

Amo e odeio esse seu poder quase de X-men de ter tudo friamente calculado. Amo mais quando está a serviço de uma escolha. (E como os homens escolhem fácil, meu Deus! Podem até não escolher sempre bem, mas certamente não perdem neurônios no processo.)

Ah, os homens… Quando vem ao nosso resgate pra matar a barata MONSTRA, pisando firme como o próprio Gladiador… Quando gargalham até doer a barriga com uma piada ruim… Quando pedem desculpas de um jeito tão tosco e atrapalhado que quase passa despercebida… Quando elogiam com um sorriso bobo de quem nunca viu o mar… Quase morro de amor!  Não há no universo nada que se compare.

E então? Convenci? Meu amor está a salvo de questionamentos?

Ótimo. Agora, senta aqui do meu ladinho e me responde… qual de vocês foi o CANALHA que inventou que mulher gosta de discutir relação???

scarlett e rhett

Foram vocês mesmos, HOMENS, no coletivo, não foi? Suspeitei desde o princípio. Parabéns a todos os envolvidos.

Mulheres NÃO GOSTAM de discutir relação – se você é homem, faça a fineza de reler a frase anterior até as palavras perderem completamente o sentido, tipo, quando você se sentir um drogadorindo pra parede. Vai lá… eu espero.

Foi? Mentira! Foi nada! Homem nenhum atende quando é tratado como adolescente! Mas veja, meu bem… O próprio fato de não querer dar justa razão à pessoa que o trata como adolescente prova que seu comportamento É ADOLESCENTE! São todos! Sempre serão! E isso eu odeio mais do que amo. Certeza.

Então, a gente não gosta de DR. A gente PRECISA de DR pra não desistir da relação. DR é o momento em que o árbitro chama o autor da falta pra conversar e tentar evitar o cartão vermelho. É quando você, no auge da excitação sexual, para tudo pra botar camisinha, entende? Você está lá, fazendo a sua jogada, sem querer pensar em possíveis consequências, mas TÊMQUÊ pensar!

Quanto mais vocês fogem, mais a gente sofre. Quanto mais se agarram a argumentos fabricados em cinco segundos, imbecis de tão infundados, tudo para adiar a DR (e prolongar a partida de video-game), mais vocês ofendem nossa inteligência e magoam nossos sentimentos.

Você acha que a DR vai acabar com a paz do seu relacionamento, mas a sua parceira já se sente às portas de um manicômio.

Tem como enlouquecer a moça apenas na cama, meu bem?

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Ana Márcia Cordeiro

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Vida facebookiana-instagramizada

Ah, essa vida maravilhosa de corpos malhados, sorrisos talhados em fotos milimetricamente filtradas! Coisa linda, minha gente! Pixel a pixel, as pessoas se esforçam para imprimir não apenas o sorriso perfeito, mas a própria quintessência da beleza, sucesso, bem-aventurança, enfim, da felicidade suprema – coisa que obviamente não encontra ar fora das redes sociais.

Ora, veja… Como sou cidadã crítica da futilidade cibernética! Peraí que eu mereço um meme!

ui

(Aliás, já morreu o “ui”, né, gente? Puxa vida, já vai tarde).

Mas não se iludam, como eu sempre digo: eu sou uma fraude. Eu também dou aquela editada sagaz em mim mesma. Foto da minha barriga, por exemplo, em redes sociais NUNCA SERÁ. Minhas imagens postadas são sempre o resultado menos pior de uma série de cinco (no mínimo!).

Mas também já postei vários status queimadores (carbonizadores!) de filme sobre, sei lá, como é difícil viver numa casa onde o café é feito direto no copo de requeijão porque a jarra da cafeteira quebrou e a dureza momentaneamente me impede de comprar outra (jarra! Que dirá, cafeteira!). Só que parei de brincar assim (ou pelo menos aliviei) porque me percebi um bicho esquisito, uma hiena, talvez, em meio a uma selva composta apenas por felinos de fino trato.

Todo mundo quer mostrar sua melhor versão. E que problema há nisso? De verdade-verdadeira, nenhum. Mas da maneira como vejo, são as perdas, os momentos pouco edificantes que nos fazem humanos. Ser vitorioso o tempo todo dá tanto trabalho que transforma esses felinos em seres mitológicos, verdadeiros deuses e semi-deuses do Olimpo! E você acha que tem cerveja no Olimpo? Caipirinha? Playlist que vai de Elis a Audioslave passando por Sidney Magal? Tem nada, rapaz! Ah, eu canso… Dá não. (Tá descendo essa nuvem? Segura pra mim então!)

Tirando meu mal humor e preguiiiiça, tudo isso seria inofensivo e não valeria indignação alguma se não viesse atrelado à maior dificuldade da vida nessa sociedade facebookiana-instagramizada: o total desinteresse pelos relacionamentos.

É tanto tempo perdido em busca do filtro perfeito que não dá para aprofundar conversa nenhuma! E isso, levado às últimas consequências, acaba por produzir uma horda de seres humanos (ou felinos?) que passam anos sendo exatamente os mesmos, como se tivessem encontrado a fonte da juventude emocional. Simplesmente não amadurecem.

Você pode estar se perguntando… “Meu Deus! Da simples dificuldade em aprofundar as conversas chegamos a um surto de não-amadurecimento?? O que vem depois?? A volta da doença da vaca louca?? O que está acontecen-dú-uh? Eu estava em paz, quando esse texto do Amor Crônico chegou”.

Mas calmem que eu dei um salto no meu rançiocínio. Eis o pulo gato (ou seja, do felino! Huiahuiahuia):

Minha teoria (ou de alguém bem mais inteligente e que eu desconheço, ou alguém que conheço mas não lembro agora, num movimento inconsciente – porém nítido! – de roubar a ideia alheia) é que a gente cresce através das relações.

Cada relacionamento oferece oportunidades diversas de crescimento emocional, de amadurecimento. E a diversidade de relacionamentos nos oferece a diversidade de oportunidades diversas de amadurecimento (entenderam? É tipo, diversidade ao cubo!).

Relacionamento com os pais (e mães!) não é capaz de nos levar a fase adulta, embora a família construa essa base. Quanto mais eles nos ajudarem a lidar com frustrações e regras, melhor nos sairemos na vida adulta. Mas eles, nossos pais, só nos trazem até uma antessala da vida real. Daí pra frente passamos a depender de outras relações; amigos, amores, colegas, vez por outra um vizinho, os chefes, depois os filhos, genros/noras, netos, talvez até a enfermeira do asilo… uma pessoa disponível ao relacionamento nunca para de amadurecer.

Ah, mas nessa selva maravilhosa de felinos filtrados e estilizados, os relacionamentos parecem ter perdido muito território (não mijou nos cantos, deu nisso).

Compreensível, afinal, como se aprofunda uma relação sem uma de boas conversas? (Rapaz, que trocadilho sutil, agora, hein. Achei digno. Sei nem por que, mas achei).

O que mais se vê por aí é gente repetindo as relações, alternando apenas o “invólucro” daquilo com o que se relacionam. E essa falta de diversidade de relações transforma gente muito boa em tristes e eternas reprises de si mesmas.

O amor, por outro lado, está bombando nas redes sociais: distribui-se tal palavra indiscriminadamente! Aliás, estamos todos “amando” freneticamente, da mesma maneira que o “ódio” também se popularizou enquanto expressão idiomática. Eu (que sou uma fralde, não se esqueçam) vivo comentando “AMO!” e “ÓDIO” nas postagens dos amigos.

Mas de tantos amores proferidos interneticamente, quantos se resumem à fusão do símbolo matemático de “menor”  (<) com o algarismo “três”? (Ou à das letras “s” somadas com o algarismo “dois”? Esse NEM PARECE coração, gente! Noção, por favor).

Nenhum emoticon conta se não for acompanhado de um encurtamento de distâncias, de um jeito de estar junto que pode até ser cibernético, mas nunca virtual.

Então, se você tiver UMA pessoa em sua timeline realmente disposta a se deixar conhecer e a te conhecer também, não perca tempo. Aprofundem-se juntos.

Em tempos de facebook e instagram, a melhor coisa que você pode fazer por si mesmo é encontrar alguém com quem rasgar o tecido da fantasia (aquele estampado de oncinha).

Estejam abertos para aprofundar as conversas e relacionamentos. Encontrem parceiros para cavar seu abismo e dar a mão na hora do pulo.

Felinos perfeitos tem medo de altura.

felino perfeito

linhaAna Márcia Cordeiro

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