Arquivo do autor:Giseli Rodrigues

Sobre as expectativas dos outros

Você conhece alguém e logo começam a perguntar sobre o namoro, engata o namoro e já perguntam sobre data de casamento, casa e logo perguntam quando vem o primeiro filho, nasce o primeiro e já cobram o segundo. Eu não sei como é para os homens, mas nós mulheres somos cobradas constantemente, principalmente em relação a relacionamento amoroso e maternidade.

Eu, casada e mãe, não tenho absolutamente nada contra casamento e maternidade. Mas fico bastante incomodada com a ideia de que nascemos única e exclusivamente para ter alguém e procriar. Como se valêssemos menos se não estamos em uma relação amorosa ou não temos filhos. Quando uma mulher afirma que não deseja ter filhos, então, é logo tachada de fria, calculista e má pessoa.

Acredito que tantas cobranças sobre o que é ser mulher acabam, sim, por influenciar nossas escolhas e estabelecer padrões que, muitas vezes, não trazem felicidade. Escuto e leio inúmeros relatos de mulheres angustiadas por estarem sozinhas, reclamando que não encontram ninguém e seus relacionamentos não dão certo. Mas estar com alguém é garantia de felicidade e realização? Casar pode não ser bom para todo mundo, assim como ter filhos também não.

As inúmeras cobranças são se restringem somente a relação amorosa e filhos. Eu sei disso. Embora seja bastante chato seria até mais fácil lidar somente com essas questões. Criam expectativas – e inúmeros questionamentos – sobre todas as áreas da nossa vida. Uns se metem com mais veemência do que outros, mas dificilmente há alguém no mundo que não seja interrogado vez ou outra. Sobre família, estudo, emprego, filhos, casamento, amigos. Não importa. Os outros têm sempre um conselho incrível e uma opinião para dar.

Diante de tantas cobranças, você sabe exatamente o que deseja? Faz o que acredita ser o melhor para a sua vida? Casou por amor ou por achar que era hora? Vive de acordo com as suas expectativas ou as dos outros? São mais felizes aqueles que descobrem o que querem, que sabem onde desejam chegar, que lutam pelos seus objetivos e não vivem por perseguir aspirações alheias para serem exemplos.

Desejar casar e ter filhos é saudável. Casar e ter filhos porque os outros querem, por achar que já está na idade ou que não vai encontrar uma pessoa melhor já não é uma boa ideia. Além de nunca saciar as expectativas alheias, vai estar sempre em desacordo com as expectativas da pessoa mais importante do mundo: você mesmo.

Abra o coração para o amor, mas saiba que a sua felicidade não está em ninguém a não ser em si mesmo.

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Relações violentas

Recentemente me colocaram em um grupo, no facebook, sobre relacionamentos abusivos. Um grupo com milhares de mulheres e uma série de conteúdo sobre violência contra a mulher e, sobretudo, relatos sobre relacionamentos abusivos. Muitas mulheres pedem ajuda para analisar o modo como são tratadas e identificar se os seus companheiros são abusivos ou não.

Por que estou escrevendo sobre isso? Porque muitas vezes ouvimos que algumas mulheres gostam de apanhar, gostam de ser “mulher de malandro”, estão em relacionamentos violentos e abusivos porque querem e escolheram. Mas, dentro de uma relação doentia, muitas pessoas perdem o seu referencial, têm dúvidas se estão sendo respeitadas ou não, algumas vezes não viveram outras experiências e nem sabem como funciona uma parceria saudável.

Estou certa de que nenhuma mulher gosta de ser agredida, humilhada, destratada, insultada, traída, ameaçada, amedrontada. Nenhuma. Mas algumas nunca chegaram a conhecer o que é amor, nem mesmo dentro de suas próprias famílias. Outras se apaixonaram por homens que, inicialmente, eram amorosos, e aos poucos apresentaram suas faces manipuladoras, abusivas e violentas.

Pessoas são universos complexos e os motivos que as levam a continuar em relações que fazem mal são mais difíceis de julgar do que podemos imaginar. São inúmeros os motivos. Algumas mulheres não têm para onde voltar, dependem de seus companheiros financeiramente, suas famílias não as aceitam de volta, têm filhos e acreditam que uma separação será dolorosa demais para as crianças, acreditam que são culpadas pelas agressões que sofrem, acham que merecem passar por todo o sofrimento que vivem, pensam que o companheiro irá mudar e que elas são responsáveis pelo comportamento deles.

Cada pessoa tem a sua história. Que não nos cabe julgar. Aliás, todo o julgamento que temos feito ao longo do tempo, colocando nossos dedos em riste para afirmar que cada um tem o relacionamento que merece e sofre porque escolheu, afasta ainda mais a possibilidade dessas mulheres falarem abertamente sobre seus sofrimentos e procurar ajuda.

Então, toda vez que sentir vontade de julgar uma mulher que sofre – ou sofreu – qualquer tipo de agressão por parte do companheiro e comentar “como ela continua essa relação?”, “merece passar por tudo isso mesmo”, “como ela ainda corre atrás dele?”, “voltou para ele porque gosta de sofrer”, faça o exercício de se colocar no lugar do outro. Eu sei que é difícil, mas procure entender que tomar a decisão de se livrar de algo que faz mal também é doloroso – principalmente quando a violência é tanta que a pessoa envolvida nem sabe mais como é viver em paz.

Sobre violência é bom ressaltar que nem toda agressão é física. Se a pessoa com quem você se relaciona te ameaça, te impede de falar com os amigos, te isola, diz que você é incapaz de atingir seus objetivos, pede suas senhas, vigia o que você faz, te persegue, obriga a fazer sexo, se recusa a usar preservativo, retém seu dinheiro, não te deixa estudar ou trabalhar, lamento dizer: esse é um relacionamento abusivo.

O amor precisa fazer bem. Não pode deixar cicatrizes no corpo nem na alma.

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Ciúme faz bem à relação?

A verdade é que praticamente todas as pessoas já passaram por situações em que se sentiram desconfortáveis ou inseguros. Como, por exemplo, quando o parceiro(a) olhou para alguém numa festa ou deu mais atenção a outra pessoa. O medo de perder a pessoa amada é natural e instintivo, o que não justifica protagonizar uma cena de ciúme.

Reconhecer as situações que despertam insegurança é bom. Assim é possível conversar sobre isso com o companheiro(a), elucidar dúvidas, tranquilizar o coração e, sobretudo, encontrar maneiras de conviver em paz e harmonia. Mas quando o ciúme é recorrente, tudo é um sinal de alerta, e o casal não se sente à vontade em lugar algum, a relação corre risco.

Geralmente as pessoas ciumentas adotam comportamentos controladores que alimentam círculos viciosos: a pessoa que é alvo de ciúme sente-se pressionada, controlada e passa a ocultar algumas informações para evitar problemas. E quando a mentira vem a tona o ciumento confirma a expectativa de que não pode confiar em ninguém. O que gera mais estresse, briga, discórdia. E a relação vive um desgaste.

O ciumento acaba desrespeitando, pressionando e empurrando o companheiro para fora da relação. E, pouco a pouco, o casal para de encontrar os amigos, evita falar abertamente o que pensa, deixa de usar certas roupas para não causar desconforto ao parceiro (a) com medo de dar início a uma briga. Isso não é nada saudável. Nem tampouco uma demonstração de amor. Por mais que o ciumento justifique seu comportamento possessivo como demonstração de atenção, carinho, preocupação e afeto, é bom esclarecer que o amor não ameaça, não torna o dia a dia um inferno e nem faz com que o companheiro fique com medo.

Amar é respeitar a pessoa que está ao nosso lado e desejar que ela seja feliz. E todo esse controle é o contrário disso.  Todas as relações atravessam períodos de maior e menor proximidade, e é natural que em determinado momento haja insegurança e medo de perder a pessoa amada, mas se esse medo domina a relação e cria um verdadeiro mal estar, é preciso ficar atento.

É importante que, quando surge o ciúme, as emoções não sejam ignoradas. Identificar o que causa insegurança e falar sobre isso de maneira clara pode ser bom para a relação. Se o outro se importa com o relacionamento vai fazer questão de conversar, esclarecer, explicar. Tudo será resolvido de uma forma saudável e, com o passar do tempo, o ciúme vai dando lugar a confiança.

O ciúme faz mal à relação. Impede que as pessoas ajam com naturalidade, sejam elas mesmas, construam laços espontâneos. Se o ciumento é incapaz de mudar sozinho, apesar dos esforços, a terapia pode ser uma maneira de auxiliar na mudança de comportamento e ajudar na construção de uma relação mais harmoniosa e enriquecedora.

Demonstrar interesse e se preocupar com o outro é muito diferente de controlar todos os passos e impor limites. E não há amor que floresça onde cada passo pode gerar uma discórdia.

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Ser a outra

Toda semana fico sabendo de novas histórias sobre traição. E toda semana fico chocada, indignada e desacreditada nas pessoas e em suas relações calcadas em mentiras, desrespeito e ilusões. Dos casos que soube recentemente, quem está traindo o parceiro tem aquela imagem de pessoa certinha, discurso conservador em prol da família e dos bons costumes e publica várias fotos e declarações de amor nas redes sociais.

Sabe aquele relacionamento de dar inveja? A família de comercial de margarina? Mas não é sobre pregar um discurso e ter atitudes divergências nem a superficialidade das publicações nas redes sociais – em que nem tudo é o que parece –  que desejo falar hoje. Hoje eu quero falar de um personagem tão demonizado, odiado e incompreendido: a outra.

A outra é uma mulher como nós. Como tantas. Não importa se é alta, baixa, loira, morena, rica, pobre, feia bonita, culta ou inculta. Importa que ela se apaixonou pelo mesmo homem que você. Sem que você saiba disso. E, se a história é descoberta, geralmente todo ódio é transferido para ela. Afinal, é uma puta, vadia, destruidora de lares, pistoleira. Inúmeras cenas de filmes e novelas ilustram brigas de mulheres por causa de homem.

Assisti poucas cenas – na realidade não estou lembrando de nenhuma – em que a mulher traída agrediu o próprio parceiro, a pessoa que a enganou. Mas isso também não é um texto sobre violência ou apologia a agressão. Nada justifica bater em alguém. Nem uma traição é motivo para isso. O que é então o objetivo deste texto? Analisar, superficialmente, o porquê uma mulher aceitar ficar com uma pessoa comprometida.

Conheci mulheres que foram amantes por anos, se sujeitando a encontros em horários esdrúxulos, tirando inúmeras fotos com o homem que ama sem poder publicá-las, comemorando datas festivas em dias diferentes, se contentando com poucas horas de atenção e até mesmo abrindo mão do sonho de ser mãe, pois o homem já tinha filhos com a esposa.

Das histórias que já conheci, algumas mulheres acreditaram que ser a outra era ficar apenas com a parte boa da relação – sexo, passeios e presentes. Que teriam um romance ausente de monotonia e obrigações. Mas foi justamente isso que gerou toda a mágoa, insegurança, desconforto e, posteriormente, conflitos.

Algumas mulheres também julgaram que nada estavam fazendo de errado e bastava aproveitar um pouco do homem que acharam bonito, inteligente ou sei lá o quê. Só sexo e nada mais. Até que um encontro se transformou no segundo, no terceiro, no quarto, e perderam o controle. Paixão é uma coisa complexa, não é mesmo? Não dá para planejar.

Também não estou com pena da outra. A vida é feita de escolhas. Se ela se envolveu com um homem comprometido, ou continuou com ele depois que descobriu que ele tinha alguém, foi porque quis. E toda escolha traz consequências. O que, neste caso, consiste em aceitar que não está no topo das prioridades do outro e não poderá contar com seu apoio prontamente.

Não é fácil acabar com uma relação quando se está apaixonada. Mesmo percebendo que o homem não irá abdicar da mulher para viver uma nova relação e que as coisas vão permanecer como estão, parece mais fácil e menos doloroso aceitar. Muitas vezes, no entanto, se sujeitar ser a outra mesmo estando insatisfeita com a situação afeta outras relações afetivas, familiares e até mesmo profissionais.

Com o passar do tempo os planos e os sonhos vão ficando para trás em detrimento de uma relação que nunca evolui. Ou não evolui do jeito que gostaria, já que a pessoa pela qual se apaixonou já tem compromisso, rotina e uma vida que não está disposta a renunciar em nome de outro amor.

Hoje meu texto é para a outra: se você está com um homem comprometido e já teve demonstrações suficientes de que ele nunca irá renunciar a essa relação para investir em outra com você, reflita sobre o seu futuro e o que espera de uma relação amorosa. Exteriorize sua tristeza, reconheça a dor de viver uma relação pela metade e tenha força para acabar com o que te faz mal.

Procure apoio dos amigos, busque um terapeuta. Às vezes é necessário compreender o porquê de escolher homens complicados e estabelecer relações insatisfatórias. Ninguém precisa ficar estacionado em uma relação que não pode ser vivida plenamente e, por isso mesmo, causa dor, mágoa e tristeza. É preciso recuperar a autoestima e otimismo e perceber que o amor é outra coisa.

Se você gosta de ser a outra, aí já é outra história. E, pelo menos por enquanto, eu não tenho um texto para você.

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“É bom que dá saudade”

Constantemente, quando digo que meu marido está viajando a trabalho, as pessoas afirmam com entusiasmo “é bom que dá saudade”, “assim o casamento não vai acabar nunca”, “que bom ficar longe do marido a semana toda e só encontrar no fim de semana”, “quisera eu que meu marido passasse a semana fora”.

Todas as vezes que alguém faz uma exclamação positiva sobre a distância eu fico me perguntando: que tipo de relacionamento ela tem para preferir o marido longe? Será que a pessoa que escolheu para viver atrapalha a sua rotina? Como deve ser a vida familiar de uma pessoa que afirma que estar longe de um membro é mais prazeroso que estar perto?

Pode ser que o casal esteja mal e nem tenha se dado conta ainda, mas, na maior parte das vezes, desconfio que pessoas que fazem afirmações desse tipo nunca tiveram a oportunidade de conviver com uma rotina de viagens constantes do companheiro, com despedidas e reencontros. Não sabem o que é conviver com uma rotina de viagens curtas seguidas ou mesmo de um longo período ininterrupto.

Quando o parceiro viaja esporadicamente, seja para participar de um curso, visitar um familiar ou mesmo a trabalho, é uma coisa. E é provável que alguns casais se entusiasmem com as novidades trazidas pelo companheiro. Mas essa é uma experiência bem diferente de quem tem as viagens como rotina. De quem convive com alguém que faz e desfaz malas toda semana. Ou fica meses longe de casa, como algumas profissões exigem.

Por mais que a tecnologia facilite bastante a comunicação e faça com que a distância pareça menor, nada substitui a presença, a rotina, o dia a dia, a convivência. Nada substitui um abraço, um beijo, um colo. Num momento de tristeza ou alegria, é muito melhor quando o outro está presente. Para uma palavra amiga ou um silêncio de apoio que toda tecnologia existente ainda não conseguiu suprir.

Fico imaginando o casal com filhos pequenos em uma rotina de viagens. É claro que dá para falar ao telefone, mandar mensagens, gravar vídeos e áudios e acompanhar o crescimento da criança. Mas pelos olhos de quem está com ela todo dia. Não os seus próprios. Por mais que o parceiro conte as novidades, leia a agenda, conte que o filho fez algo incrível ou teve um comportamento inadequado quem viaja não estará lá para um abraço apertado ou uma bronca. E isso faz diferença.

Não digo com isso que as crianças não compreendam e que os pais que estão longe serão menos importantes na vida dos filhos. Acho até que os pequenos sabem lidar muito melhor com essa rotina. Provavelmente aquele que vive constantemente longe de casa é que deve sofrer imaginando que não faz falta à rotina, que o filho está aprendendo com outras pessoas o que ele gostaria de ensinar e que estaria mais feliz se pudesse estar presente nas pequenas conquistas diárias.

Viagens a trabalho não são motivos para enfraquecimento da relação, mas é preciso sim uma dose a mais de cuidado para manter o amor à distância. Para que a pessoa participe da sua vida e da vida familiar estando à quilômetros. Todas as relações precisam de diálogo constante, mas aquelas com integrantes viajantes precisam valorizar ainda mais a comunicação para que a distância seja apenas física e não emocional.

Quanto à saudade, é claro que pessoas que se amam e ficam distantes por um período sentem falta uma das outras – ou deveriam. E fazem de cada reencontro uma festa. Mas não é tão simples quanto a maioria imagina. Portanto, valorize a presença de quem você ama. Se a convivência for insuportável e você deseja ver o companheiro longe, reflita se vale a pena continuar essa relação, porque com viagem ou sem viagem, com distância ou sem distância, não há milagre que faça um relacionamento melhorar se ele já acabou.

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