Arquivo do autor:Roberta Simoni

Romântica Enrustida

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Já era madrugada quando o telefone tocou. Era a minha avó. Também estava com insônia e, sabendo que eu sofro do mesmo mal, me ligou para colocar a conversa em dia. As coisas não mudaram muito desde a época em que ficávamos acordadas até tarde na sala da casa dela, assistindo o programa do Jô, conversando e fazendo crochê. Pensando bem, mudaram sim. Tudo mudou. Menos o fato de continuarmos insones, ela lá e eu cá.

E aí quando eu me vejo às gargalhadas, escutando a minha avó contando sobre como ela fazia para livrar-se do meu avô que, aos 87 e gozando de uma saúde bem precária, ainda teimava em dar umas investidas sexuais na relação – sem sucesso, pois minha véia já não queria mais saber dessas saliências há muito tempo – eu percebo que não tenho uma família, tenho amigos. O que, com muita sorte, dá na mesmo.

É claro que nem todo mundo lá em casa é assim, tão moderninho. Minha irmã, por exemplo, tem quase a mesma idade que eu e é mais conservadora do que a minha mãe e a minha avó juntas. Eu jamais a incomodaria com uma ligação interurbana para contar sobre uma frustração sexual, por exemplo, como já fiz com a minha mãe. Mais de uma vez. (desculpa aí, mãe!)

Minha mãe e eu já fizemos compras em sex shop juntas. Pois. Diante disso é difícil imaginar que falar sobre sexo seja embaraçoso pra mim ou que haja qualquer outro assunto que me intimide ou me bloqueie. Mas há. Ninguém é assim tão bem resolvido a ponto de conseguir transitar descalço por todos os universos com a maior segurança do mundo, sem medo de entrar um espinho no pé ou de pisar num caco de vidro.

O que me intimida? O amor. Esse bicho de sete cabeças grandes e monstruosas, com cara de bicho papão. Amor e matemática. São duas coisas que – dizem – têm lógica, mas eu não compreendo lá muito bem. Faria sentido para mim se fosse uma equação mais ou menos assim: eu + você + amor = felicidade. Mas sempre tem algo a mais. Ou a menos.

Falo do amor romântico, desse que faz a gente se imaginar vestida de branco num altar, segurando um buquê de flores e dizendo sim para um noivo bonitão tipo o Ken da Barbie. E se eu falo tanto sobre o amor e se escrevo sobre ele com uma frequência considerável, não significa que eu saiba o que estou dizendo sempre. Sinto decepcioná-los caros leitores, mas, às vezes, eu não faço a menor ideia.

Bom, eu idealizo. Nisso eu sou boa. Eu invento. Eu crio. E até vivo alguma coisa do que eu escrevo de vez em quando. Não é como se eu não soubesse nada a respeito do amor. Mas não é como se eu soubesse tudo também. Eu penso que sei o bastante, mas posso estar equivocada, tanto que se você me surpreender com um pergunta do tipo “o que é o amor?”, eu vou demorar tanto para te responder quando se você me perguntar quanto é sete vezes oito.

Calma, eu ainda tô pensando! … Cinquenta e seis? Certo? Certo!

Ah… você quer saber do que eu penso sobre o amor? Bom. Isso é muito relativo. Vai de pessoa para pessoa, depende. Tá… eu tô enrolando. Tá vendo? Eu me perco. Não fui preparada para isso. A verdade é que os tempos mudaram, o amor romântico tá na moda de novo, é a tendência dessa estação e, ao que tudo indica, da próxima também, e eu sou péssima para seguir qualquer tipo de modismo. Tenho meu próprio estilo de mulher moderna, independente e… bom, de romântica enrustida.

Veja bem, os tempos são outros. Eu nasci numa época em que as mulheres sonham com carreiras de sucesso e cargos importantes. Um bom marido, na maior parte das vezes, funciona como um acessório de enfeite, um brinco de diamantes, uma pulseira de ouro ou um anel de esmeralda. Em suma: virou artigo de luxo. Muitas sonham, poucas têm. A maioria acaba se conformando em conseguir ser bem sucedida profissionalmente. Embora haja quem ande por aí, exibindo um amor falsificado pendurado na orelha.

amaréFosse o amor tão simples como nas figurinhas do “Amar é…”, seria tudo mais interessante e divertido. E talvez seja. A gente é que complica, idealiza demais e realiza de menos. O meu amor talvez seja como o meu álbum de figurinhas do Amar é… que, desde criança, eu colecionava e já naquela época eu devia ser uma romântica em potencial, que acabou se retraindo. A coleção ainda não tá completa e eu ainda tô saindo do armário aos poucos. Mas agora, olhando para essas figurinhas todas, amar me parece coisa demais.

Amar é coisa que muita gente tenta. Amar é muita coisa para quem tenta. Amar é coisa de gente grande em figurinha para criança. Amar é coisa muita pra pouca gente e pra muita gente, é pouca coisa.

Pra mim (respondendo, por fim, à fatídica pergunta), o amor não é para amadores, é coisa séria – que eu, de fato, levo muito a sério – talvez por isso eu pise com tanto cuidado nesse terreno.

Acho que o amor é um não-ideal. Não tem fórmula, lógica, razão nem por quê. O amor deve ser qualquer coisa parecida com essa vontade insubstituível e irresistível de acordar e ver aquela mesma pessoa ali, do mesmo lado da cama todos os dias. O resto inventa-se, o resto dá-se o nome que quiser…

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Amor é lindo. Às vezes.

O amor tem cara de bicho

Oi, Leitor. Vou te chamar assim, de Leitor, com essa maiúscula aí na primeira letra porque não sei o seu nome próprio, então vou te batizar de Leitor até que eu descubra seu nome. Isto é, caso você queira se identificar ao final deste texto. Fique absolutamente à vontade quanto a isso, pois eu estou totalmente confortável aqui, falando e você aí, lendo, mesmo sem talvez a gente ainda nem se conhecer.

Então, Leitor, eu não sei quantas vezes você já acessou esse blog, quantos textos já leu, não sei qual é o seu perfil, qual o seu estilo preferido de narrativa, não sei o que você espera encontrar quando você entra num site chamado “amor crônico”, mas, me colocando no lugar de alguém que entra aqui pela primeira vez, suponho que espere encontrar textos falando sobre amores crônicos. Viajei? Ou para você, a palavra crônica é só uma alusão ao gênero de narração?

Fato é que andei lendo nossos textos (incluindo os meus) mais criticamente – e agora corro o risco de ir para o paredão das escritoras e ser eliminada deste espaço crônico pelas minhas parceiras autoras – e notei que andamos falando mais do amor em sua beleza e plenitude do que propriamente em sua essência crônica e aguda. O que me levou a pensar: o amor sempre é belo, a vida sempre é bela, nós somos todas belas ou andamos floreando um cadinho a vida pra ela ficar mais agridoce?

É claro que todas nós temos vidas distintas e vivemos momentos distintos. De modo que vivenciamos o amor de forma absolutamente diferente umas das outras a julgar pelo momento que atravessamos. O mesmo vale para você, Leitor, que pode se identificar ou não com o que você está lendo dependendo da fase que você está atravessando agora, certo? Certo.

Sendo assim, caro Leitor, deixo aqui um aviso para que você decida prosseguir ou não adentrando comigo por entre essas linhas retas repletas de raciocínios tortos: este texto é sobre o amor num estilo mais próximo ao de Miguel Esteves Cardoso em “O Amor é Fodido” ou ao de Charles Bukowski em “O Amor é um Cão dos Diabos”. Obviamente não me comparando a nenhum desses dois gênios literários, apenas fazendo uma singela menção a abordagem de amor feita por eles nesses clássicos. Não se preocupe, pois você não precisa ter lido nenhum desses livros para saber que não estamos falando aqui do amor na sua forma mais poética e romantizada, uma vez que os títulos são totalmente autoexplicativos, não é mesmo?

Eu, que já falei do amor tantas vezes, eu, que sou criatura assumidamente sentimental e passional, eu, que acho o amor uma coisa tão linda, essencial, esplêndida, maravilhosa (e creia-me: não existe qualquer vestígio de ironia nessa afirmação), eu, que preciso de amor para viver, eu, que acredito em toda forma de amor, eu, que aposto todas as minhas fichas no amor, devo assumir: o amor, muitas vezes, é mesmo um cão dos diabos.

Você, Leitor, que ainda continua aí, não se sinta mal por achar que o amor, às vezes, passa longe de ser divino. Você não está sozinho. Alguma vez você sofreu por amor, Leitor? Sofreu, né? E quando isso aconteceu, alguém deve ter dito a você que se fosse amor de verdade, não te traria sofrimento, não é? Pois é. Mas isso não é verdade! O amor quase nunca é um mar de rosas. Que o amor é fogo (que arde e não se ver e blá blá blá…) todo mundo sabe, mas se ele vai aquecer o seu coração ou se vai incendiar a sua casa, nunca se sabe. Algumas vezes ele vai te levar ao céu. Outras vezes, direto para o inferno, sem escalas. Amor é coisa de matar e morrer, de fazer muita gente sã perder o juízo, a cabeça e até o famigerado amor próprio.

Têm dias que amar é o maior desafio de todos, têm dias que amar é um verdadeiro ato de coragem. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Beleza. Bora amar o próximo, mas dá pra não ficar tão próximo assim, por favor? Imagine-se amando aquele seu “colega” filho da puta lá da firma, aquele cretino que te deu uma fechada no trânsito hoje mais cedo ou aquele safado que se aproveitou para te dar aquela roçada básica no ônibus lotado hoje de manhã. Pois é.

Nem precisamos ir tão longe, né Leitor? Às vezes é difícil amar até mesmo quem a gente ama muito, muito mesmo. Quem normalmente a gente ama genuinamente, sem precisar fazer qualquer esforço. Você me entende, Leitor? Sabe aqueles dias que amar o seu próximo mais próximo vira uma verdadeira missão? Amar seu filho lindo quando ele esgota toda a sua paciência. Amar sua mulher incrível quando ela está no auge da TPM. Amar seu maridão quando ele faz aquela grosseria gostosa e gratuita com você. Amar a sua simpática sogra ou a sua adorável mãe quando elas se intrometem desenfreadamente na sua vida. Amar o seu cãozinho fofo quando ele faz cocô no seu tapete persa. Amar o seu gatinho quando ele destrói o seu sofá novinho.

Entenda uma coisa, Leitor: amar é uma arte. Agora, entenda outra coisa: não é todos os dias que acordamos artistas. Ou vai me dizer que você se sente sempre inspirado, Leitor? Que todos os dias seu coração está cheio de amor pela vida e por todos os seres vivos? Bom, então vou para de te chamar de Leitor e vou passar a te chamar de “E.T.” a partir de agora, pode ser? Corta essa! Só estamos eu e você aqui, não tem ninguém olhando, não precisa fazer cena!

O amor costuma exigir sacrifícios enormes e eventualmente ele vai deixar o seu coração partido, em frangalhos. O amor não vai ser lindo todos os dias. Eu aposto que você sabe disso, Leitor, mas se você ainda não sabe, eu, que já criei certa afinidade contigo depois de todas essas linhas, me sinto na obrigação de te alertar: têm dias que o amor vai ser fodido, amaldiçoado, dolorido, feio e vai ter cara de bicho.

Ele vai te meter medo, vai te assustar e te fazer sentir dores em partes do seu corpo que você nem supunha que existiam. Mas sabe o que é mais louco nisso tudo, Leitor? É que essa porra de amor continua sendo a coisa mais alucinante, maravilhosa e intensa que eu, você e qualquer ser humano já chegou perto ou vai chegar de sentir na vida. No fim das contas, Leitor, o amor é o que faz da gente parte de um mesmo todo, é que nos aproxima e me faz estar aqui escrevendo e você aí, lendo. É o que faz a gente começar tudo de novo, todos os dias, apesar de tudo, apesar de todos, apesar de mim e de você.

Vai entender, Leitor, vai entender…

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Tarde demais, baby…

A diva Greta Gargo dando aquela esnobada básica no bofe Robert Taylor

A diva Greta Gargo dando aquela esnobada básica no bofe Robert Taylor

Ela estava aí, do seu lado todo o tempo, e só agora que ela foi embora você percebeu o quanto a ama e que não pode viver sem ela. Aí você saiu feito um louco pela rua, pegou um táxi, mandou o motorista acelerar o máximo que pudesse, mas o trânsito estava completamente congestionado, então você abandonou o táxi e foi correndo mesmo, entrou no aeroporto empurrando as pessoas, se desculpando, tropeçando e derrubando as bagagens que estavam pelo caminho, mas quando chegou no portão de embarque, para o seu desespero, ela já havia entrado no avião, que decolaria nos próximos minutos. Você tentou ultrapassar o portão mesmo assim, mas, obviamente foi barrado pelos seguranças porque estava sem o bilhete de embarque. Aí você pediu – na verdade você implorou – para que te deixassem passar, argumentou que o amor da sua vida estava dentro daquele avião e que se você não a impedisse, ela partiria para nunca mais voltar. Ficaram comovidos e, com alguma resistência, deixaram você entrar. Quando você alcançou o avião, a tripulação já havia sido avisada e estava à sua espera, a aeromoça (particularmente emocionada) comunicou aos passageiros o motivo do atraso do voo e chamou sua amada pelo nome, que se levantou, sem entender nada, até o momento em que te viu vindo ao encontro dela. Vocês trocaram olhares apaixonados. Ela quis que você explicasse o que estava fazendo ali, e você finalmente disse, em alto e bom tom, que não conseguia imaginar sua vida sem ela e a pediu em casamento. Ouviu-se um coro de comoção (“Óhhhhhh” ) dentro do avião. Ela disse sim e vocês se beijaram demoradamente, enquanto os passageiros aplaudiam entusiasmados aquela cena de amor. A aeromoça suspirou, desejando viver um amor assim algum dia, e…

The End.

Começam a subir os créditos do filme, música do Roxette tocando ao fundo, as luzes da sala do cinema se acendem, os espectadores começam a se levantar aos poucos, um se espreguiça daqui, outro boceja de lá. Alguns casais resistem sentados, aos beijos, envolvidos pelo clima do romantismo cinematográfico mas, cedo ou tarde terão que levantar, dar as mãos e voltar para a vida real sem legenda e trilha sonora para colaborar.

Eu não satirizo o amor romântico, só acho que certas coisas só funcionam bem nas telas do cinema, isto é, quando funcionam. Esse roteiro onde o mocinho passa o filme inteiro sem notar o amor platônico da mocinha e só lááá no final descobre o seu amor por ela, ou da fulaninha que durante toda a estória não dá o devido valor ao fulaninho e no fim, depois de se estrepar toda, decide voltar porque descobre que é dele que ela gosta e os dois vivem felizes para sempre não cola… não mais.

Pode ser que um dia eu entenda, mas acho pouco provável, se tem uma dúvida que levo comigo dessa vida é essa: por que as pessoas só dão valor depois que perdem?

Teoricamente não seria mais simples valorizar o que está ao alcance das mãos, diante dos olhos do coração? Então, por que na prática é tão diferente? É como se alguma coisa encobrisse a visão enquanto você ainda tem ao seu dispor e depois, ao perder, como num passe de mágica, você passasse a enxergar o que antes, misteriosamente, não via o que estava a um palmo do seu nariz.

Por que tentar fazer tudo diferente só agora que eu não te quero mais? – foi a pergunta que fiz, anos atrás, para um ex-namorado. Não sei… – foi o que ele me respondeu com franqueza. Pois é, nem eu sabia, e ainda não sei e, provavelmente, nunca vou saber, tampouco entender. Porque os anos passam e eu vejo as pessoas cometendo os mesmos erros tolos, de olhos vendados, perdendo de vista grandes amores, deixando escapar a magia do relacionamento construído no cotidiano a dois, para depois terem tristes estórias de amor para – não – contar. Sim, porque, me desculpem, mas, eu não tenho interesse em escutar.

E eu espero que as chances tão logo se esgotem para os que não sabem aproveitar, porque é puro desperdício de tempo e desgaste do amor que, se ainda não se esgotou, pouco sobrou para gastar. E eu não quero que ele termine com ela no final. Eu quero que o bonitão lá entre no avião e, por conta do atraso do voo, os passageiros estejam esbravejando contra ele, que irá encontrá-la acompanhada de um cara bem mais gato e apaixonado por ela agora! Exatamente agora, quando ela também está apaixonada por ele, e não amanhã, ano que vem, na próxima encarnação… quando ela, cansada de amar por dois, já tiver ido embora. Eu quero é ver gente se amando “tudo-junto-ao-mesmo-tempo-agora”, não em tempos e mundos distintos. Quero escutar falar de estórias de amor que começam e terminam juntas, embora, fatalmente, tantos acabem separados antes do fim. Mesmo assim, o que eu quero é ver recíprocos começos, meios e fins de amor mútuo, independente do desfecho, um “durante feliz”, porque “final feliz” só não me apetece, nem me convence… não mais.

E você, meu bem, trate de se engraçar com a aeromoça que se derreteu toda com seu romantismo descartável e seu amor tardio, porque dessa vez – confesso que sinto um prazer cretino em dizer isso – você até alcançou o avião, mas chegou tarde demais, baby.

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O primeiro ano de casamento é para os fortes

Foto de David Jay

Foto de David Jay

Você pode pegar um texto escrito por alguém casado há mais de 50 anos ou por alguém que está casado ou mora junto há pouco menos de um ano, como é o meu caso, que, no fim (ou mesmo antes da conclusão do texto) você vai perceber que todos os autores sempre vão tentar te induzir ao mesmo raciocínio: não existe receita para um casamento feliz. Menos, é claro, aqueles autores que estão tentando te vender alguma “fórmula mágica” que, obviamente, não existe. Existem estratégias, sim. E isso, sem dúvidas, o tempo de convívio ajuda muito. Dizem que o primeiro ano é o mais desafiador – para não dizer infernal – de todos. Em minha defesa, devo dizer que isso é… bom, é a mais pura verdade.

Há alguns anos, saí de uma outra relação da qual não sobrevivi ao primeiro ano de convivência, apesar dos anos de namoro que antecederam àquela experiência. Teria sido traumático se estivéssemos falando de alguém com reações normais, que se traumatiza e nunca mais se permite passar por nada semelhante na vida. Mas a pessoa em questão sou eu e, felizmente, eu não aprendo. Digo felizmente porque é graças a essa característica que hoje vivo a sorte de um amor tranquilo. Ok, nem tão tranquilo assim, mas maravilhoso, apesar de todas as provações do primeiro ano de “casamento” (e as aspas ali no casamento só se justificam porque não é oficial, mas funciona como qualquer união estável, com ou sem papel passado).

Um casal que se propõe a ler livros do gênero “Casamento Blindado” não garante o sucesso, tampouco a blindagem da relação, bem como uma mulher ou um homem que adora ler e se junta com alguém que não tem o hábito da leitura – nem pretende ter, diga-se de passagem – não determina o fracasso do relacionamento. Nada disso faz muito sentido pra mim! Ora… como se o fato de um cara não ler Nietzsche ou nunca ter ouvido falar em Proust fosse fazer alguma diferença na hora do “vamu vê”, ou se o fato da moça gostar de ler Saramago e ser fã da Lispector a tornasse menos atraente. Se ainda fosse um Paulo Coelho, tudo bem, mas… como o gosto literário não está em questão aqui, voltemos a falar mal do casamento.

O que eu aprendi neste primeiro ano que completo de casada? Tantas coisas que daria para escrever um livro para vender fórmulas nada mágicas de sobrevivência aos primeiros doze meses de vida conjugal, mas a primeira e mais importante delas é que, acima de tudo e de todos, é preciso querer estar junto. E não basta que um queira, tem que ser os dois! É preciso que os dois queiram muito estar ali. Se essa vontade não for mútua e intensa, a casa cai. Porque, no princípio, os tijolos da casa estão se levantando devagar, a estrutura ainda não está suficientemente firme e é provável que uma parede ou outra se desmorone de quando em quando e que os dois precisem levantá-las juntos uma ou mais vezes. Portanto, tem que ter um bocado de disposição e habilidade.

Pegue duas pessoas com personalidades absolutamente diferentes, criadas de forma absurdamente distintas, quase dois seres extraterrestres que nem sabiam da existência de vida no planeta um do outro, agora coloque-os dentro da mesma casa. Faça-os dormirem e acordarem todos os dias juntos, dividirem tarefas e responsabilidades e faça-os entrarem em acordo na mais perfeita ordem e harmonia sem nunca, jamais, sob hipótese alguma entrarem em desavença. Isso! Agora escreva um conto de fadas!

Na vida real, eu experimentei morar com meu marido num cubículo por quase todo o período desse primeiro ano, de modo que nem mesmo a briga mais séria nos impedia de ficarmos grudados, uma vez que nosso antigo apartamento tinha um único cômodo e éramos obrigados a nos suportar mesmo nos dias menos propícios ao amor e à luxúria. Foi uma experiência e tanto! Quase uma prova de fogo e nós sobrevivemos. Nada garante que sobreviveremos as próximas provas que virão, pois sabemos que virão. Sempre virão. A única certeza que nós temos é que continuamos dispostos e que a vontade de permanecermos juntos e tocarmos em frente só faz crescer. E isso pode até parecer pouco, mas não é.

Num mundo repleto de ofertas, com tantos peitos e bundas durinhas por aí, sexo fácil a cada esquina, prazer momentâneo, falta de compromisso, o que significa diretamente ausência de comprometimento, de cobrança e satisfação para poder fazer o que bem entender sem qualquer tipo de interferência e/ou opinião alheia, escolher permanecer ao lado de alguém por livre e espontânea vontade é uma coisa muito linda, gente!

Mas a gente continua sedento por escutar belíssimas histórias de amor, não é? Então toma essas:

Era uma vez um casal que tinha uma infiltração no teto do quarto. A esposa ia lá e pedia para o marido subir no telhado e consertar a telha quebrada, o marido prometia que ia subir, mas nunca subia, veio a chuva forte e formou-se uma goteira enorme bem em cima da cama do casal. No dia seguinte, a esposa chamou o pedreiro, que resolveu o problema em cinco minutos.

Era uma vez uma esposa consumista. O marido pedia incansavelmente para ela comprar menos sapatos, mas ela não se controlava e cada dia chegava em casa com um par de sapatos novos. Um dia ele ligou para o banco e, em cinco minutos, cancelou o cartão de crédito que eles tinham na conta conjunta.

E eles viveram felizes para sempre.

Seria lindo se antes de chamar o pedreiro, a mulher não tivesse cobrado uma atitude do marido uma centena de vezes até que ele sentisse vontade de subir no telhado – não para consertar a telha, mas para se jogar lá de cima, e se o marido, por sua vez, antes de ter percebido a compulsão da mulher e tomado as rédeas da situação, não tivesse reclamado exaustivamente com ela, a ponto de obrigá-la a comprar sapatos escondida, como quem comete uma infidelidade . E seria mais lindo ainda se nenhuma dessas pequenas coisas do dia-a-dia não enlouquecessem os casais pouco a pouco. Mas enlouquecem, e levam ao extremo da separação, por isso a vontade de estar junto tem que ser tamanha para superar os minúsculos suicídios diários que cometemos contra a mesma relação que desejamos com tanto afinco que dê certo.

Defeitos todos temos. E todo defeito, por menor que seja, de perto, pode se tornar um abismo. O desafio é não deixar que os abismos se tornem tantos e tão grandes a ponto do afastamento não permitir que a gente consiga criar e atravessar as pontes que nos aproximam. Mas falar é fácil, né? Na teoria, metáforas com abismos e pontes é uma graça. Na prática, o defeito do outro tá muito mais para um buraco negro, é infinitamente mais difícil de lidar e, pra ser muito franca, as vantagens de estar numa relação precisam ser bem razoáveis para compensar.

O que faz a engenharia da coisa toda funcionar é muito simples. E, se a gente parar pra observar bem, é a mesma engenharia complexa que faz tudo desandar também. O problema, geralmente está nas peças, ou seja, em nós.

Por aqui os sinais de que as peças andam minimamente ajustadas é ver o sorriso largo que ele dá quando entra em casa e percebe que eu já cheguei do trabalho. É ouví-lo se queixando todas as noites de como o tempo passou depressa só porque a gente finalmente se encontrou depois de mais um dia daqueles. É perder a hora todas as manhãs porque vai ficando cada vez mais difícil conseguir nos desgrudar. É, também, ter a oportunidade de dizer “eu te avisei” e optar pelo silêncio, por mais tentador que seja.

E a gente vai vivendo junto e vai experimentando as dores e as delícias de amar, aprender e viver o outro.

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Festa estranha com gente esquisita

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O mundo tá cheio de gente, repleto, lotado… é verdade. Agora, tenta achar alguém que te interesse de verdade nessa multidão pra você ver como o mundo não começa, de repente, a parecer despovoado, deserto, terra de ninguém.

Nem se eu usasse todos os dedos das minhas mãos (e dos meus pés) daria para contar a quantidade de gente bacana que eu conheço e que está solteira à procura de uma pessoa minimamente compatível para tomar milkshake no mesmo canudo enquanto conversam sobre trivialidades, dormir (depois passar a noite em claro) na mesma cama e, com sorte, compartilhar os sonhos e dividir a conta do jantar. Assim, nada muito sofisticado…

E eu nem estou falando só da quantidade de mulheres interessantes, legais e inteligentes que estão sozinhas, mas dos homens também. Não estão em quantidade tão numerosa quanto as mulheres, mas reclamam exatamente da mesma coisa: só tem gente maluca!

Nós reclamamos que só encontramos homens malucos e eles reclamam que só aparece mulher louca! Gente, o hospício é aqui e agora. Ninguém percebe porque toda essa gente doida anda fantasiada de sanidade por aí, disfarçados dentro de vestidos tubinho na night carioca, de terno e gravata na Avenida Paulista, por trás de sorrisos lindos artificialmente clareados, em páginas de Facebook, @s de Twitter e fotos com filtros bonitinhos no Instagram.

Como identificá-los? Simples! Pena eu não fazer a menor ideia, caso contrário nunca teria permitido que malucos tivessem entrado na minha vida, feito estragos consideráveis e depois tivessem saído por aí, bagunçando a vida de outras mocinhas indefesas como eu. Ok, nem tão indefesas, nem tão mocinhas assim, mas, no mínimo, ingênuas.

Agora, quer atrair gente doida de todas as idades, cores, tamanhos e classes sociais? Pergunte-me como.

Veja bem, não me refiro aos esquizofrênicos diagnosticados e tratados em clínicas psiquiátricas. Costumo me entender muito melhor com eles do que com gente considerada “normal” pela sociedade. Me refiro aos loucos que sequer supõem que são loucos.

A maluca disfarçada de auto-suficiente que fala em casamento no segundo encontro. O doido travestido de bom moço que se apaixona pela moça, manda flores, pede em namoro e, uma semana mais tarde, se nega a beijá-la porque perdeu o interesse na menina. A desesperada que parece sensata e manda 20 torpedos por dia. O conservador que se passa por liberal e desmerece a mulher que transou com ele no primeiro encontro. A bandida que incorpora a santa e se nega a sair com o cara depois de não saber mais como se insinuar pra ele. O medroso que banca o destemido e foge ao primeiro sinal de envolvimento. E assim caminha a humanidade…

Passar por situações como essas tem lá suas vantagens. Eu só não descobri ainda quais são. Talvez seja bom porque pode-se eliminar, logo de cara, qualquer possibilidade de levar adiante alguma coisa com alguém que apresente um desses comportamentos suspeitos. O problema é quando os sinais não são tão claros e só começam a ficar evidentes depois de um tempo: o bonzinho-bonitinho-da-mamãe só revela que é sadomasoquista depois de um ano de namoro. Ela só confessa que é fã do NX Zero na porta da igreja. Tenso.

Enquanto isso, gente interessante de verdade se esconde em casa porque perdeu a fé na humanidade ou porque está com medo e/ou preguiça de se relacionar de novo.

E lá fora tá rolando aquela festa estranha com gente esquisita que eu ando me recusando a participar.

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