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Use!

Sabe aquela roupa que você comprou em liquidação e nunca usou nem vai usar? Tire agora do armário. Doe para alguém que precisa, se for altruísta. Jogue fora, se for egoísta. Mas abra esse espaço no seu armário e na sua cabeça. Porque ter roupa e não vestir é o mesmo que não ter.

Sabe aquela bagunça de livros, cadernos, discos, filmes, maquiagem vencida e sapatos que você nem sabe que tem? Arrume tudo. Organize-se. Livre-se dos excessos. Saiba o que possui. Usufrua. Porque ter e não saber onde está é o mesmo que não ter.

Sabe aquele aparelho que comprou e está lá encostado pegando poeira porque você não sabe usar? Pois aprenda já! Não espere que uma alma bondosa venha fazer tudo por você. Leia o manual, pergunte, pesquise, futuque. Porque ter e não saber usar é o mesmo que não ter.

Sabe aquela roupa de cama bacana, aquele vinho importado e aquela lingerie rendada, eternamente reservados para uma data especial? Marque essa data agora, arrume o motivo, mesmo que seja apenas ser feliz. Porque ter e não desfrutar é o mesmo que não ter.

Sabe aquele cara legal que te dá mole e que você anda ignorando? Não? Então abra os olhos, porque provavelmente ele está bem na sua frente e você não está nem enxergando. Medo em excesso pode cegar. Desconfiança demais pode te deixar míope ao novo. Abra os olhos – e o coração. Porque viver e não amar não é viver.

Use tudo. Não guarde nada. Nem pequenos rancores, nem grandes amores.

Destranque seu coração e viva sua vida. Não a deixe guardada para depois.

 

Use

 

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Lina Vieira

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A cura

Assim que eu percebi, seus olhos me capturaram
Não havia como resistir, embora eu me negasse a ceder
Não havia o que temer, embora meu corpo tremesse

Entorpecida pela sua respiração
Embalada por suas palavras
E guiada pelo seu olhar
Cheguei até aqui
E você me fez sorrir
Quando estava perdida tentando alcançar o distante
Sem acreditar no caminho tão curto e sereno

Mas você é paz e tormenta
Certo e errado
Abrigo e desejo
E essa é uma escolha que eu não preciso mais fazer

Seguro forte a sua mão
Apenas para ter certeza da sua presença
Pelo prazer de sentir seu calor entre meus dedos
Porque eu não tenho mais medo
E, não, eu não quero partir

 

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Lina Vieira

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Pela banalização do amor burro

Nascer do sol

Eu sei que pode parecer estranho iniciar uma nova etapa falando mais do mesmo, mas eu devo a mim mesma reatar os laços com essa máxima que nos trouxe até aqui. Afinal, o SER HUMANO é um bicho burro meRmo, porque ama sem pré-requisitos, porque ama sem medida, porque é capaz de amar mais o outro que a si próprio.

Por algum tempo, andei iludida com a ideia equivocada de que podemos evoluir emocionalmente a ponto de não cometer burradas sentimentais. Doce engano, amigos. O máximo que conseguimos alcançar nesse sentido é erguer barreiras que fazem com que nosso coração seja prisioneiro da nossa mente. E, me desculpe, mas não quero um amor contido, planejado, calculado, selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado. Eu quero mais é voar!

Agir com a razão é bom, ruim é deixar de sentir. Agir com razão é ótimo, sentir com razão é impossível. E isso não significa querer paixões inconsequentes e infantiloides. Não significa correr atrás de quem não te quer, pagar micos dignos de pena ou se submeter a maus tratos – isso é burrice intelectual mesmo. Mas, sim, significa amar com toda sinceridade, toda pureza e todo senso de incondicionalidade que o sentimento espontâneo e REAL necessita e merece.

Amor de mãe, por exemplo: quer amor mais burro que esse, que desafia qualquer lógica? Aliás, acho que vou mudar minha expressão a partir de hoje: amor burro é amor incondicional. É amor sem explicação, e, mesmo assim, com toda coerência do mundo.

É o amor que vem mesmo que a gente não queira. É o amor que vem por acaso, numa ironia do destino, na fração de segundos de um olhar ou num lento despertar.

Por isso, eu digo: inteligência emocional é, no máximo, ter consciência de como o sentimento verdadeiramente arrebatador nos idiotiza, nos entorpece e nos embriaga. E, quer saber? Eu quero mais é me embebedar de amor! Eu queria mais é que existisse um amor burro novinho a cada esquina, ainda que pela mesma pessoa. Porque, no final das contas, a felicidade deveria ser algo banal.

Deixe coração e janela abertos. Você nunca sabe quando o amor vai chegar ou quando o sol vai brilhar.

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Lina Vieira

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Flashback

Janela

O sol finalmente começava a revelar seus primeiros raios, quebrando a escuridão da madrugada, quando ela finalmente tomou o ônibus. Ficara aguardando o coletivo por quase meia hora, sozinha, debaixo de uma suave garoa, resquício da chuva da noite anterior. Com um suspiro, subiu os degraus. Contava o dinheiro, murmurando uma antiga canção. Com o porta-níqueis na mão, as moedas eram como pequenos brinquedos brilhantes, desviando sua atenção.

– Vai passar, senhora?

– Desculpe, me distraí.

Pagou a passagem e passou pela roleta. Sentou-se e, enquanto passava a mão pelos cabelos úmidos, repassava em sua memória todos os momentos que vivera nas últimas horas. Um meio sorriso no canto dos lábios deixava revelar sua satisfação pelo feito. Mal podia acreditar que tinha voltado lá. Já fazia mais de um ano desde a última vez, no entanto o sentimento ainda era o mesmo: não poderia mais lutar contra isso.

Desembaçou com as mãos um pedaço da janela para que pudesse observar o caminho. A cada rosto que passava pela calçada, via os olhos dele. E todos os olhos pareciam observar-lhe. Todos os olhos pareciam sorrir-lhe.

Já perdia a noção do tempo quando chegou ao seu destino. Deu sinal. Ao descer do ônibus, tropeçou, distraída, e iria ao chão se não fosse amparada pelo senhor de chapéu que aguardava sua descida para tomar a condução.

– Está bem, minha jovem?

– Nunca estive tão bem em toda a minha vida.

Mais meia dúzia de passos e abriu o portão de casa. Subiu as escadas em um silêncio triunfante. Trocou-se, colocando rapidamente a camisola, e sentou-se do lado esquerdo da cama, ao mesmo tempo em que o despertador começava a tocar, marcando seis horas.

– Bom dia, querido.

E levantou-se para fazer o café.

 

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Lina Vieira

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