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Em tempos de ódio

osgemeos

“Vontade de dar na cara de todo mundo que defende direitos humanos”, “é lésbica por falta de rola”, “gente drogada tem mais é que morrer”, “esse povo fica tendo filho para ganhar bolsa família, tem mais é que se foder”, “toda feminista deveria ser estuprada”, “essa aí é uma piranha”, “tinham que jogar uma bomba na favela e matar todo mundo, só tem bandido lá”, “mulher e negro não é gente”, “volta para a senzala”, “se meu filho for gay enfio a porrada”, “se fosse meu filho colocava para fora de casa”.

Nenhuma dessas frases foi criada por mim e, infelizmente, não são ficcionais. Foram copiadas de comentários do facebook e matérias em veículos de comunicação. São reais e manifestam a opinião de uma pessoa que existe, é de carne e osso e acessa a internet. Caso duvide da veracidade basta acessar algum portal e ler os comentários, onde ofensas e ameaças bem piores são escritas sem nenhum pudor. Porque ainda fiz questão de selecionar as menos violentas.

Com a desculpa de que é só uma opinião e a liberdade de expressão autoriza a dizer o que quiser, o mundo tem nos dado a oportunidade de conhecer as pessoas como realmente são: cruéis, violentas, vingativas, intolerantes, preconceituosas e más. E o ódio e a maldade são expressos das mais variadas formas, todos os dias.

Vejo ódio no líder religioso que clama amor ao próximo, mas abusa dos fiéis, prega intolerância aos homossexuais e jura que os ateus vão para o inferno. Nos pais que desrespeitam e humilham os filhos. Nos governantes que roubam verba (da merenda aos salários de servidores) e deixam os cidadãos à própria sorte. Nos professores que segregam, humilham e ofendem. Nos chefes que assediam funcionários, moralmente ou sexualmente.  Nos delegados que transformam a vítima em culpada. Nas leis que não servem à justiça, mas ao bel prazer de quem pode pagar mais. Nos “homens de bem” que desejam o mal a quem discorda deles.

Vejo o ódio em cada um de nós. Rotineiramente. Em forma de gritos, xingamentos, ameaças, “piadas” e “brincadeiras”. Nas salas de aula, empresas, bares, reuniões familiares. Porque nenhum lugar está imune ao ódio, ao preconceito, ao mal. E cada dia fazemos mais parte dele. Por isso eu, que queria falar sobre amor, hoje falo sobre o ódio.

O que está acontecendo com as pessoas? Como podem desejar a paz agredindo verbal e fisicamente as pessoas? Por que estão lançando ódio e preconceito contra todos os outros? Por que estão misturando posições partidárias e políticas em todas as discussões? Por que estão pensando em soluções ainda mais violentas para a violência atual?

Mesmo com medo precisamos nos posicionar diante de tanta maldade. Precisamos dizer a quem conhecemos que não faz sentido defender pessoas que se mostram favoráveis a estupro, por exemplo. Que não é admissível aceitar que, em meio a uma discordância, as pessoas ameacem umas às outras. Que chamar negro de macaco e dizer para um menino que ele vai virar “mulherzinha” não é brincadeira. É só preconceito mesmo.

O momento atual está nos levando à exaustão, mas não podemos desistir de explicar o óbvio. Como por exemplo, que discursos de ódio não são opiniões. E que denunciar incitação à violência não é ser contra a liberdade de expressão. Que ninguém é assaltado, porque esqueceu a porta aberta, nem estuprado, porque estava de roupa curta. Crimes acontecem, pois existem criminosos.

Dia a dia, pouco a pouco, estamos banalizando o ódio. Fazemos isso quando não pensamos na realidade que nos cerca. Quando nos calamos diante de uma injustiça. Quando acreditamos que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Quando ignoramos a desigualdade. Quando batemos de ombros e assumimos que não é problema nosso. Sendo que é. Porque se a sociedade é má, perversa e está cuspindo ódio, significa que as pessoas que nela vivem são más, perversas e estão cuspindo ódio. Que compactuam com uma cultura de violência. Em maior ou menor grau.

Da mesma maneira que não existiria um governo desonesto se os cidadãos fossem todos honestos, não haveria violência se todos os cidadãos que afirmam ser do bem não desejassem agressão e morte daqueles que têm opinião contrária. Portanto, precisamos refletir sobre nós mesmos. Sobre as pessoas que somos. Sobre as pessoas que desejamos ser. Sobre o mundo que desejamos. Sobre o que estamos fazendo para construí-lo.

Precisamos falar de ódio para perceber o quanto precisamos de amor. O amor se manifesta quando pensamos no bem comum, na integridade de todos e não apenas daqueles que fazem parte de nosso círculo. Quando ouvimos as pessoas ao invés de julgá-las e acusá-las. Quando seguramos um bandido até que a polícia chegue, mas não o espancamos. Quando mesmo com raiva não agredimos verbalmente nem fisicamente.

Em tempos de ódio precisamos cultivar o amor. No mínimo que fazemos. Todos os dias.

O amor, esse sim, é a grande revolução.

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Você está com a pessoa errada

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Se você está com alguém que critica suas roupas, diz que sua amiga é mais bonita que você, te proíbe de usar o que você gosta, implica com sua maquiagem e diz como deve ser seu corte de cabelo: você está com a pessoa errada.

Se você está com alguém que interrompe suas falas, diz que você está sempre errada, menospreza seu conhecimento, te chama de burra, se acha mais inteligente que você e ri de suas colocações: você está com a pessoa errada.

Se você está com alguém que não estimula seu desenvolvimento, faz cara feia quando você menciona iniciar um curso, cria empecilhos para você estudar, diz que o curso que você escolheu é ruim e você é incapaz de se especializar em alguma coisa: você está com a pessoa errada.

Se você está com alguém que não quer que você trabalhe, impede seu desenvolvimento profissional, debocha se você ganha menos ou fica constrangido se você ganha mais: você está com a pessoa errada.

Se você está com alguém que te proíbe de sair sozinha, tem ciúmes de todos os seus familiares e amigos, arranja defeitos para todos eles e quer te isolar do mundo: você está com a pessoa errada.

Se você está com alguém que grita com você, te ameaça e te agride verbalmente ou fisicamente: você está com a pessoa errada.

Se você está com alguém que não se responsabiliza pela família e pela casa tanto quanto você, que só fica jogando videogame enquanto você faz todo o serviço doméstico: você está com a pessoa errada.

Se você está com alguém que te obriga a ter relações sexuais: você está com a pessoa errada.

Se você está com alguém que vive te chamando de louca, estúpida, instável e te leva a pensar que é culpada por todos os erros que ele comete e no final ainda faz com que você fique com pena dele: você está com a pessoa errada.

Se você está com alguém cujas ações não condizem com as suas palavras, que muda de humor constantemente, quebra promessas, diz que te ama, mas vive te magoando: você está com a pessoa errada.

Se você está com alguém que controla com quem você pode falar, vigia suas mensagens, exige senha do seu e-mail e redes sociais, desconfia constantemente de você, te acusa de traição sem que a haja motivo para isso: você está com a pessoa errada.

A pessoa certa sempre vai te respeitar. Amar não é sofrer nem se escravizar. Por mais confortável que seja acreditar que o ser amado irá mudar, as pessoas só mudam quando elas querem.

Antes de amar alguém, ama-se acima de tudo.

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