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A beleza está no bem querer

Quando criança minha avó costumava dizer frases das quais lembro até hoje e às vezes repito: “o saber não ocupa lugar”, “seguro morreu de velho”, “quem ama o feio bonito lhe parece”, “vão os anéis, ficam os dedos”, “beleza não põe mesa”, “a beleza está no bem querer”. Não quero escrever sobre ditados populares. Quero falar de beleza, atração física e amor.

É difícil explicar o porquê as pessoas se interessem umas pelas outras, o que faz com que olhem alguém e sintam atração. Quando desconhecidos se veem pela primeira vez é provável que o que chame atenção é a beleza, a aparência física. Mas isso não é só. Alguns admiram a voz, o jeito de andar, se encantam por alguém que nada tem a ver com o seu padrão de beleza e nem sabem explicar a razão.

Química? Sintonia? Estava escrito nas estrelas? Amor de outras vidas? São tantas as justificativas que dão a atração que as pessoas sentem umas pelas outras… talvez estejam todas corretas. Talvez estejam todas erradas. Talvez cada um de nós tenha a sua própria explicação. Mas eu acredito que o amor não nasce instantaneamente de um olhar e nem brota à primeira vista.

Às vezes nos deparamos com pessoas que conhecemos há anos em companhia de outras que jamais imaginaríamos. Totalmente diferentes do padrão de beleza que dizem gostar ou com comportamentos que não imaginávamos que fossem admirar. E elas estão lá apaixonadas, felizes, radiantes, transbordando felicidade. E, claro, ficamos felizes por elas também.

Pela maneira como as pessoas se olham, se tocam, se tratam, percebemos o quanto se amam. Que estão apaixonadas. Que são felizes juntas. E, sobretudo, que acham a pessoa amada a mais linda do mundo. E aí eu entendo o que minha avó queria dizer quando afirmava que a beleza está no bem querer.

A beleza não está na cor dos olhos, no peso, na altura, na maquiagem perfeita, nas roupas de grife, nos cabelos de comercial de shampoo, nas unhas bem-feitas, na barriga negativa. Longe de mim dizer que não devemos cuidar do nosso corpo e da nossa aparência. Quero dizer que quem ama vê além de um corpo, além de uma imagem refletida no espelho.

Como são lindas as pessoas que amamos! Mesmo que não estampem capas de revistas, não desfilem para marcas famosas e passem despercebidas para muitas pessoas. Elas nos querem bem – e queremos o bem delas também.

Para quem ama a beleza está no amor. No querer bem ao outro, no cuidado, na gentileza, na delicadeza, na demonstração de afeto. O coração vê o mundo com outras lentes.

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O relacionamento dos outros

tenis

Essa semana li mais de uma vez que “todos os homens bacanas são casados”. Com toda paciência e amor que ainda resta em meu coração, respondi a essas mulheres que elas estão erradas, que existe muita gente no mundo, que irão encontrar alguém que valha a pena, que o amor sempre vem. Mas não estou certa de que fiz a coisa certa.

Desde que o mundo é mundo as pessoas cobiçam o que é do próximo. Certamente não foi por acaso que entre os dez mandamentos da bíblia estão não cobiçar a mulher nem a casa do próximo. A grama do vizinho é sempre mais verde, não é mesmo? A família dos outros não têm problemas, o casamento é perfeito, o salário é melhor, o carro mais moderno, os filhos mais obedientes, a profissão mais interessante.

A quantidade de pessoas que considera a vida dos outros um verdadeiro paraíso é impressionante. Mas o quanto sabemos sobre os outros para julgar como é a vida deles? E, principalmente, para desejar o que têm? O superficial, o que salta aos nossos olhos, está longe da profundidade da existência humana. De qualquer uma, inclusive as nossas. E jamais podemos supor.

Famílias aparentemente felizes podem viver em desarmonia quando as portas da casa se fecham. Filhos perfeitos podem viver sob tortura. Casais aparentemente felizes podem ter relações conturbadas. Profissionais bem sucedidos podem esconder inúmeros fracassos. Cada pessoa tem sua história, sua vida, sua trajetória, mas, ainda que não sejam histórias trágicas, podem estar muito longe das cenas que povoam a imaginação de quem cobiça a vida alheia.

Acredite: aquele homem que você achou incrível pode nem ser isso tudo. Aquela mulher que parece impressionante também não. Porque, no dia a dia, é preciso muito mais do que um corpo escultural, umas piadas engraçadas, uma voz bonita ou seja lá o que tenha causado o seu encantamento. Pessoas são multifacetadas e vão muito além do que aparentam ser.

Há aqueles que se envolvem com pessoas comprometidas e depois ficam sonhando que elas terminem seus relacionamentos para viver um conto de fadas. Longe de mim transferir a responsabilidade da traição para os amantes, mas, convenhamos: se a pessoa fosse perfeita trairia o companheiro que tem?  Você deseja uma pessoa infiel e desleal para a sua vida?

Isso tudo é para dizer que precisamos ter cuidado com o que desejamos, porque nem tudo que reluz é ouro, nem tudo é o que parece e se, de longe, a grama do vizinho parece mais verde, de perto pode estar mal cuidada. Cuide bem do seu jardim, da maneira que puder, porque ficar de olho no jardim alheio não fará o seu florescer.

Sempre há alguém que cabe nos nossos sonhos e pode preencher com alegria a nossa realidade. Portanto, se o alguém que povoa os seus sonhos já faz parte da realidade de outra pessoa, você está desperdiçando energia com a pessoa errada. Pense nisso.

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Leve

Era uma tarde morna de outono e tudo parecia se repetir como um déjà-vu enfadonho diante de seus olhos. O sabor amargo de mais um dia que se passava perdurava na boca seca e pálida. As folhas se desgarravam dos galhos e caíam lentamente, na mesma velocidade e constância que as lágrimas escorriam sobre o rosto paralisado e sem viço.

Ela espia o estabelecimento do outro lado da rua. Das mãos do atendente feliz se faziam dançar sobre a bandeja líquidos, sólidos e fluidos, em cores, corpo e alma. O bailar vívido e pleno nas pontas dos dedos do rapaz fazia espalhar sorrisos pelas mesas do bistrô escondido entre as árvores.

Atravessando a rua, ela pensa: café, chocolate ou uma torta com água? Rapidamente, o garçom puxa a cadeira e a convida a sentar. Ele sugere uma refeição e ela resolve aceitar. Na verdade, nem fome ela tinha. Sentou-se ali tentando sugar um pouco do riso que ouvia de longe. Pede que a bebida venha junto à refeição e se cala.

Esperando o pedido, ela balança as pernas em um movimento ritmado e olha à sua volta com a cabeça baixa, se escondendo atrás dos cabelos longos. Uma eternidade separava o momento em que ela aceitou a ideia do garçom da hora da primeira garfada. Desconfiada, ela sopra o garfo com um creme quente e cheiroso. Olha para os lados novamente, disfarça e enfia tudo na boca de uma só vez. Ainda não sabia se era bom ou ruim, mas era picante. Puxou mais uma garfada. Engoliu.

Com a sutileza e simpatia de uma borboleta, o garçom pede licença e serve uma taça de Sauvignon Blanc na temperatura perfeita. Ela cheira o vinho e faz cara de aprovação com certa esperança. Boca entreaberta, o líquido toca macio na língua e penetra calmamente pela garganta. Ela toma outro gole. E outro. E mais um.

Agora, o sol parecia mais laranja e vivo, aquecendo a pele desde os dedos dos pés, já descalços, passando pelas pernas semicobertas pelo vestido longo, subindo até o colo rubro. O rosto já confessava tudo o que se passava nos seus pensamentos mais proibidos, entregue pelo brilho nos olhos.

O garçom passa ao lado e ri discretamente, assumindo a culpa. Especialista em fazer dançar os fluidos em ritmo sincronizado, ele já sabia que a sessão de terapia tinha terminado. Lendo nos olhos dela o enlace do vinho e da pimenta, sem nada perguntar, ele pousa a conta na mesa. Ela sorri, paga e se levanta, leve e serena. Cúmplices, despedem-se com um aceno de cabeça.

Na calçada, sob a luz clara do dia, ela acha difícil enxergar a tela do celular, mas é fácil identificar o nome e a foto entre as últimas mensagens trocadas. Insinuações, afinidades, provocações, necessidade, vontade. Desejo é quase amor. Desejo é amor com leveza. Ela hesita por apenas alguns segundos e inicia a chamada.

Do outro lado da linha, um coração sorri, maliciosamente.

Leve

linha

Lina Vieira

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