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Leve

Era uma tarde morna de outono e tudo parecia se repetir como um déjà-vu enfadonho diante de seus olhos. O sabor amargo de mais um dia que se passava perdurava na boca seca e pálida. As folhas se desgarravam dos galhos e caíam lentamente, na mesma velocidade e constância que as lágrimas escorriam sobre o rosto paralisado e sem viço.

Ela espia o estabelecimento do outro lado da rua. Das mãos do atendente feliz se faziam dançar sobre a bandeja líquidos, sólidos e fluidos, em cores, corpo e alma. O bailar vívido e pleno nas pontas dos dedos do rapaz fazia espalhar sorrisos pelas mesas do bistrô escondido entre as árvores.

Atravessando a rua, ela pensa: café, chocolate ou uma torta com água? Rapidamente, o garçom puxa a cadeira e a convida a sentar. Ele sugere uma refeição e ela resolve aceitar. Na verdade, nem fome ela tinha. Sentou-se ali tentando sugar um pouco do riso que ouvia de longe. Pede que a bebida venha junto à refeição e se cala.

Esperando o pedido, ela balança as pernas em um movimento ritmado e olha à sua volta com a cabeça baixa, se escondendo atrás dos cabelos longos. Uma eternidade separava o momento em que ela aceitou a ideia do garçom da hora da primeira garfada. Desconfiada, ela sopra o garfo com um creme quente e cheiroso. Olha para os lados novamente, disfarça e enfia tudo na boca de uma só vez. Ainda não sabia se era bom ou ruim, mas era picante. Puxou mais uma garfada. Engoliu.

Com a sutileza e simpatia de uma borboleta, o garçom pede licença e serve uma taça de Sauvignon Blanc na temperatura perfeita. Ela cheira o vinho e faz cara de aprovação com certa esperança. Boca entreaberta, o líquido toca macio na língua e penetra calmamente pela garganta. Ela toma outro gole. E outro. E mais um.

Agora, o sol parecia mais laranja e vivo, aquecendo a pele desde os dedos dos pés, já descalços, passando pelas pernas semicobertas pelo vestido longo, subindo até o colo rubro. O rosto já confessava tudo o que se passava nos seus pensamentos mais proibidos, entregue pelo brilho nos olhos.

O garçom passa ao lado e ri discretamente, assumindo a culpa. Especialista em fazer dançar os fluidos em ritmo sincronizado, ele já sabia que a sessão de terapia tinha terminado. Lendo nos olhos dela o enlace do vinho e da pimenta, sem nada perguntar, ele pousa a conta na mesa. Ela sorri, paga e se levanta, leve e serena. Cúmplices, despedem-se com um aceno de cabeça.

Na calçada, sob a luz clara do dia, ela acha difícil enxergar a tela do celular, mas é fácil identificar o nome e a foto entre as últimas mensagens trocadas. Insinuações, afinidades, provocações, necessidade, vontade. Desejo é quase amor. Desejo é amor com leveza. Ela hesita por apenas alguns segundos e inicia a chamada.

Do outro lado da linha, um coração sorri, maliciosamente.

Leve

linha

Lina Vieira

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Alianças Invisíveis e Indivisíveis

Alianças Invisíveis

Eu nunca usei aliança, aquela de metal, de prata ou de ouro, nem mesmo de bijuteria. Nunca fiquei noiva, ainda não casei de papel passado e não troquei alianças diante de um padre numa igreja toda decorada com flores. Acho tudo isso lindo, lindo, de verdade. Sou romântica, sim, e não só respeito o ritual da cerimônia do casamento como gosto.

Pretendo, algum dia, vestir um vestido branco, colocar flores no cabelo, casar descalça numa praia ou num jardim bonito e dizer sim para o homem que amo diante de um belo pôr-do-sol. Mas mesmo antes disso acontecer, eu quero falar sobre o que eu aprendi a respeito de alianças.

Quero falar das alianças que não enfeitam os dedos das mãos, das alianças que não são simbólicas, daquelas que ninguém além de você e o seu parceiro enxergam, das alianças invisíveis, indivisíveis e de valor imensurável. Em suma: as alianças mais preciosas que existem.

O que eu aprendi sobre a verdadeira aliança é o que eu vejo se construindo no dia-a-dia, a cada amanhecer preguiçoso de caras amassadas com vontade de ficar grudado na cama até mais tarde, no café que se prepara com a quantidade de açúcar que o outro gosta, na vontade de ir para casa correndo depois de um longo dia de trabalho, na saudade aguda que se sente depois de um dia atarefado, quando mal dá tempo de falar ao telefone, no alívio de repousar naquele colo, mas só serve se for aquele, o dele, o dela.

Nos momentos únicos, nas coisas exclusivas, nas histórias que só pertencem aos dois, nos segredos da intimidade, na sutileza dos detalhes. As alianças estão ali. Na forma como só ele sabe fazer para acalmá-la, na fórmula mágica que só ela conhece de como desarmá-lo. A magia está na rotina. Eu jamais pensei que diria isso algum dia, mas o que eu descobri sobre o amor que se constrói diariamente é que ele está mesmo na rotina. Não naquela rotina de acordar, preparar o café, desejar bom dia, sair para trabalhar, voltar, desejar boa noite, dormir, acordar e fazer tudo de novo.

Falo da rotina do cuidado, do carinho, da entrega, da generosidade, da vontade de ver o outro bem, do desejo de vê-lo se realizando, de procurar meios de fazer o seu dia mais feliz. Mas isso só funciona, é claro, quando é uma via de mão dupla. Qualquer um, com o tempo, cansa dessas boas intenções quando se está sozinho com elas.

É possível enxergar melhor a força dessa aliança quando o momento é ruim ou a fase é difícil. É na hora que as coisas não vão bem que aquela rotina do cuidado e da entrega ganha um peso maior. O amor se fortalece nos momentos bons para tornar as alianças de aço nas horas difíceis.

Um casal que decide juntar suas escovas de dentes, independente de existir uma troca de alianças de compromisso ou não, deve ser, acima de tudo, aliado. Ser aliado é muito mais importante do que ser casado.

Os aliados, esses sim, são os eternos parceiros, amigos e amantes. Esses, possivelmente, serão aqueles que farão valer a frase: “E foram felizes para sempre…”

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