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Antes de homenagear as mães respeitem as mulheres

 

O dia das mães me faz lembrar que quando eu estava grávida a coordenadora da escola onde eu estudava chamou minha mãe para dizer que eu deveria interromper os estudos, pois não seria capaz de concluir o Ensino Médio e era má influência para as demais alunas.

O dia das mães me faz lembrar que quando meu filho nasceu e ficou na UTI fui acordada por uma médica durante a madrugada que insinuou que eu tinha tentado fazer um aborto e era minha culpa a sua internação. Eu nunca fiz aborto. E nunca tentei abortar.

O dia das mães me faz lembrar que essa mesma médica me impediu de ir até a UTI, mesmo depois de ter me apavorado dizendo que o bebê tinha piorado, e impediu que alguém da minha família fosse vê-lo.

O dia das mães me faz lembrar que para conseguir o meu primeiro estágio tive que omitir que era mãe e que, meses depois, quando mencionei o meu filho, a psicóloga que fez o processo seletivo afirmou que não teria me contratado se eu tivesse falado. Ela, como muitas pessoas, acreditam que filhos pequenos atrapalham a rotina de uma mulher que trabalha.

O dia das mães me faz lembrar de todas as vezes que não me deram o brinde de dia das mães, mesmo quando afirmei que era mãe, pois era muito nova e não aparentava ter filho. Porque a sociedade ama as mães, desde que tenham a idade que ela convencionou ideal. Nem nova demais, porque é muita irresponsabilidade. Nem velha demais, porque é muito fogo no rabo.

O dia das mães me faz lembrar de muitos casos de mães que são recusadas para uma vaga de emprego, pois há empregadores que acreditam que a responsabilidade dos filhos é exclusividade da mãe, que deverá sair cedo para levar as crias em consultas, participar de reuniões escolares ou faltar o trabalho quando a creche não funcionar ou quem cuida do bebê se ausentar.

O dia das mães me faz lembrar dos muitos relatos de violência obstétrica de que já tive conhecimento. Desde o “fez agora aguenta”, “na hora estava gostoso”, “se não gritou na hora, vai gritar agora?”, até o impedimento de ter acompanhante na sala de cirurgia e sofrer violência física por parte da equipe médica.

O dia das mães me faz lembrar de todas as vezes que fui julgada menos mãe e irresponsável por ter tido filho muito jovem. Mesmo tendo dado ao meu filho todo carinho, atenção e amor que alguém poderia dar.

Mães não são rainhas, não têm poderes mágicos, não são pessoas melhores que as outras e muitas vezes abdicam de muitas coisas na vida, inclusive de estudar e trabalhar, por falta de escolha. Porque a sociedade não tolera a presença de crianças. E exclui mães que não têm com quem deixá-las.

Prestar homenagens às mães como se tivéssemos habilidades sobrenaturais, quando na verdade as mães não têm alternativas a não ser dar conta de tudo (e muitas vezes sozinhas!), só demonstra que a sociedade não respeita as mulheres.

Eu amo meu filho. Ele é a luz e a razão da minha vida. Somos muito amigos, companheiros e me orgulho da relação que construímos. Mas ser mãe é uma coisa que a sociedade me ensinou a odiar. Porque mãe não tem vez. Não tem voz. É sempre culpada. Sempre julgada. Sempre apedrejada. Sempre questionada. Independente do que faça está sempre errada.

Portanto, aos que já me tacaram pedras, não me venham com flores.

Não finjam idolatrar as mães quando na realidade vocês odeiam as mulheres.

*Este texto foi escrito há 3 anos e nunca tive coragem de publicá-lo, dado o endeusamento e romantização da maternidade, mas hoje publico sem coragem mesmo.

Crônica publicada no blog da autora.

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Em tempos de ódio

osgemeos

“Vontade de dar na cara de todo mundo que defende direitos humanos”, “é lésbica por falta de rola”, “gente drogada tem mais é que morrer”, “esse povo fica tendo filho para ganhar bolsa família, tem mais é que se foder”, “toda feminista deveria ser estuprada”, “essa aí é uma piranha”, “tinham que jogar uma bomba na favela e matar todo mundo, só tem bandido lá”, “mulher e negro não é gente”, “volta para a senzala”, “se meu filho for gay enfio a porrada”, “se fosse meu filho colocava para fora de casa”.

Nenhuma dessas frases foi criada por mim e, infelizmente, não são ficcionais. Foram copiadas de comentários do facebook e matérias em veículos de comunicação. São reais e manifestam a opinião de uma pessoa que existe, é de carne e osso e acessa a internet. Caso duvide da veracidade basta acessar algum portal e ler os comentários, onde ofensas e ameaças bem piores são escritas sem nenhum pudor. Porque ainda fiz questão de selecionar as menos violentas.

Com a desculpa de que é só uma opinião e a liberdade de expressão autoriza a dizer o que quiser, o mundo tem nos dado a oportunidade de conhecer as pessoas como realmente são: cruéis, violentas, vingativas, intolerantes, preconceituosas e más. E o ódio e a maldade são expressos das mais variadas formas, todos os dias.

Vejo ódio no líder religioso que clama amor ao próximo, mas abusa dos fiéis, prega intolerância aos homossexuais e jura que os ateus vão para o inferno. Nos pais que desrespeitam e humilham os filhos. Nos governantes que roubam verba (da merenda aos salários de servidores) e deixam os cidadãos à própria sorte. Nos professores que segregam, humilham e ofendem. Nos chefes que assediam funcionários, moralmente ou sexualmente.  Nos delegados que transformam a vítima em culpada. Nas leis que não servem à justiça, mas ao bel prazer de quem pode pagar mais. Nos “homens de bem” que desejam o mal a quem discorda deles.

Vejo o ódio em cada um de nós. Rotineiramente. Em forma de gritos, xingamentos, ameaças, “piadas” e “brincadeiras”. Nas salas de aula, empresas, bares, reuniões familiares. Porque nenhum lugar está imune ao ódio, ao preconceito, ao mal. E cada dia fazemos mais parte dele. Por isso eu, que queria falar sobre amor, hoje falo sobre o ódio.

O que está acontecendo com as pessoas? Como podem desejar a paz agredindo verbal e fisicamente as pessoas? Por que estão lançando ódio e preconceito contra todos os outros? Por que estão misturando posições partidárias e políticas em todas as discussões? Por que estão pensando em soluções ainda mais violentas para a violência atual?

Mesmo com medo precisamos nos posicionar diante de tanta maldade. Precisamos dizer a quem conhecemos que não faz sentido defender pessoas que se mostram favoráveis a estupro, por exemplo. Que não é admissível aceitar que, em meio a uma discordância, as pessoas ameacem umas às outras. Que chamar negro de macaco e dizer para um menino que ele vai virar “mulherzinha” não é brincadeira. É só preconceito mesmo.

O momento atual está nos levando à exaustão, mas não podemos desistir de explicar o óbvio. Como por exemplo, que discursos de ódio não são opiniões. E que denunciar incitação à violência não é ser contra a liberdade de expressão. Que ninguém é assaltado, porque esqueceu a porta aberta, nem estuprado, porque estava de roupa curta. Crimes acontecem, pois existem criminosos.

Dia a dia, pouco a pouco, estamos banalizando o ódio. Fazemos isso quando não pensamos na realidade que nos cerca. Quando nos calamos diante de uma injustiça. Quando acreditamos que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Quando ignoramos a desigualdade. Quando batemos de ombros e assumimos que não é problema nosso. Sendo que é. Porque se a sociedade é má, perversa e está cuspindo ódio, significa que as pessoas que nela vivem são más, perversas e estão cuspindo ódio. Que compactuam com uma cultura de violência. Em maior ou menor grau.

Da mesma maneira que não existiria um governo desonesto se os cidadãos fossem todos honestos, não haveria violência se todos os cidadãos que afirmam ser do bem não desejassem agressão e morte daqueles que têm opinião contrária. Portanto, precisamos refletir sobre nós mesmos. Sobre as pessoas que somos. Sobre as pessoas que desejamos ser. Sobre o mundo que desejamos. Sobre o que estamos fazendo para construí-lo.

Precisamos falar de ódio para perceber o quanto precisamos de amor. O amor se manifesta quando pensamos no bem comum, na integridade de todos e não apenas daqueles que fazem parte de nosso círculo. Quando ouvimos as pessoas ao invés de julgá-las e acusá-las. Quando seguramos um bandido até que a polícia chegue, mas não o espancamos. Quando mesmo com raiva não agredimos verbalmente nem fisicamente.

Em tempos de ódio precisamos cultivar o amor. No mínimo que fazemos. Todos os dias.

O amor, esse sim, é a grande revolução.

linhaassinatura_GISELI

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O preço da independência feminina

Mulheres Independentes

A maioria das mulheres solteiras que eu conheço possuem uma característica em comum: são independentes. E isso é uma coisa que me intriga há muito tempo mas só agora resolvi trazer à tona. Não só porque é um assunto delicado, que mexe com o tão polêmico movimento feminista e toca na ferida dos machistas mas, porque, acima de tudo, eu demorei muito tempo para entender – eu disse entender, não aceitar – que mulheres independentes sofrem preconceitos reais.

Há poucos dias uma amiga veio me contar, indignada, que estava saindo com um sujeito que, depois de alguns encontros, virou-se pra ela e disse: “eu jamais namoraria você… não dá para controlar uma mulher tão livre e independente assim.”. Comigo o mesmo já aconteceu, só que de maneira mais sutil e menos franca. O rapaz aí em questão assumiu seu machismo, coisa que, nos dias de hoje, a maioria dos homens disfarça ou mascara e nós só vamos descobrir que o bom moço por quem nos apaixonamos é um tremendo machista enrustido tempos depois, quando a parte racional do nosso cérebro já está seriamente comprometida.

Minha mãe sempre me disse que eu assusto os homens e eu sempre me assustei com essa afirmação tão segura e enfática dela. E inconformada, questionava, “mas, por que isso, mãe?”. A resposta é simples e mesmo assim, meia volta eu preciso que ela desenhe novamente para mim, especialmente quando saio frustada e despedaçada das minhas relações.

Aos 13 anos de idade comecei a trabalhar e a ganhar meu próprio dinheiro. Aos 18, saí de casa e fui morar em outra cidade, sozinha. Trabalhei, estudei, estagiei, viajei e paguei, sem a ajuda de ninguém, minha própria faculdade, minha carteira de motorista, meu aluguel e as calcinhas que visto. Em dez anos, morei em várias cidades, tive diversos endereços e atualmente moro sozinha num apartamento pequeno que cabe no meu orçamento de jornalista freelancer e, apesar de ainda ter um caminho longo a percorrer para realizar meus sonhos e objetivos, sou feliz na minha condição de mulher livre, contudo, hoje, perto de completar 30 anos, sinto o peso das minhas conquistas.

Isso mesmo, o peso. Nessa década de caminhada solitária em busca da minha realização pessoal e profissional me envolvi com homens que, em sua maioria, admiravam a minha postura mas que, no entanto, não seguraram o rojão de ter ao lado uma mulher que toma suas próprias decisões, que não pede permissão para ir ao bar com as amigas ou para ir ali rapidinho em Ilha Grande no fim de semana se isolar para pensar um pouco na vida. Mas, ao que me parece, para eles o FIM mesmo é quando notam que não somos dependentes deles, financeira ou emocionalmente. Em contrapartida, nós, mulheres, jamais suportaríamos um companheiro emocionalmente dependente de nós, e isso não tem nada a ver com machismo ou feminismo, mas com amor, ou melhor, com a nossa forma de amar.

Mulheres independentes amam de forma diferente, amam de forma, digamos… independente. É como se, com as nossas atitudes, disséssemos assim para eles: “Olha, meu amor, eu te amo, mas precisar, precisar mesmo, eu preciso do meu trabalho, dos meus projetos, preciso me realizar, mas quero ter você ao meu lado em cada conquista. Você topa seguir de mãos dadas comigo?”. E eles entendem assim: “Querido, eu até gosto de você, mas como eu sou uma mulher livre e independente, eu saio por aí dando para quem eu quiser, tudo bem?”. E é claro, eles não aceitam, não entendem e se recusam a ter ao lado uma mulher cuja a vida, ela própria controla.

E o que temos é uma geração de mulheres bem-sucedidas, com carreiras cada vez mais sólidas e… sozinhas. Mulheres independentes dependentes de carinho, com um potencial surpreendente para amarem e serem amadas, mas que assustam tanto os homens com sua auto-suficiência que acabam se vendo abrindo mão – não por escolha, mas por imposição subconsciente da sociedade – a não terem uma vida amorosa (sim, eu tô falando de amor, não de sexo!) para continuarem conquistando seu espaço.

É claro que existem homens que não só não se importam, como também se orgulham e vibram por terem ao lado uma parceira com essas características mas, garanto, eles estão em minoria. O machismo persiste até os dias de hoje e os homens ainda se sentem intimidados e inseguros com mulheres decididas e determinadas a serem, acima de tudo, felizes e plenas.

Da mesma forma que cabe a eles, cabe a nós também o desejo e a capacidade de desempenhar diversos papéis com maestria. Eu quero ser uma profissional reconhecida e bem remunerada, quero ser uma boa mãe e quero também ter um parceiro que não só compreenda como compartilhe dos mesmos desejos e vontades, inclusive da necessidade de distração e diversão nos intervalos disso tudo, seja individualmente ou em dupla. E, tenho certeza, não é querer demais.

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