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O prazer da conquista

Há muitos anos eu trabalhei com um cafajeste nato. Dava em cima de todas as mulheres que via e não perdia o hábito nem quando namorava. O típico homem que vai para o happy hour com os colegas de trabalho e quando a namorada liga diz que ainda está trabalhando. E, claro, tinha também um affair no trabalho. Sempre. O que me impressionava.

O que leva uma mulher a se relacionar com um homem, que sabidamente, não vale nada e nem faz questão de esconder? Só passatempo, pegar sem se apegar, sexo e nada mais, diziam elas. Depois estavam lá choramingando pelos cantos, reclamando que ele já estava em outra, que não retornava as ligações.

Lembro de uma festa de final de ano em que o marido de uma funcionária foi busca-la e ela não estava mais na festa. Ele ligava para mulher, ela insistia que estava na festa, ele fez um barraco querendo procura-la e, na verdade, ela já tinha saído faz tempo com vocês sabem quem: ele, o cafajeste. Noutra ocasião ele chegou no escritório cabisbaixo, pois tinha saído com uma mulher na noite anterior e a namorada o encontrou com a outra. Um barraco. As mulheres brigaram entre elas e brigaram com ele. Ou seja: ele sempre estava envolvido em confusão.

Eu não conseguia entender o porquê de tudo aquilo. Ele tinha várias mulheres interessantes aos seus pés. Eram muito mais inteligentes do que ele, mais bonitas do que ele, mais bem-sucedidas do que ele. E nenhuma era suficiente. Até que um dia, enquanto eu saboreava meu Big Mac no na hora do almoço, ele apareceu, começamos a conversar e eu perguntei o porquê ele se envolvia com tantas pessoas, fazia promessas, mantinha contato se não tinha interesse em levar adiante qualquer relacionamento.

A resposta? “O prazer da conquista”. Ele explicou que gostava de saber se a mulher retribuiria suas investidas, que se sentia bem quando despertava a paixão delas e que a graça da coisa não era o envolvimento em si, mas convidar para sair, ficar na expectativa da resposta, enviar mensagens no dia seguinte e fazer com que a mulher se sentisse desejada. Despertar o interesse e conquistar alguém era o seu desafio. O resto não importava.

Disse mais: “a maioria dos homens é assim”. Argumentou que muitos homens se envolvem em relações extraconjugais não por amar pouco a parceira, não sentir prazer, não ter desejo ou admiração. Mas pelo prazer da conquista. Para ter certeza de que ainda conseguem despertar o interesse de alguém e são convincentes.

Eu, que não sou homem, não posso afirmar que esse colega de trabalho, do qual nunca mais ouvir falar, tem alguma razão. Mas acho que sim. Muitos homens querem aprovação, têm desejo de afirmação, gostam do êxtase da paixão e não têm paciência para construir uma relação duradoura. Para alguns essa é apenas uma fase. Para outros dura a vida inteira: uma coleção de conquistas que não vingam, porque vivem buscando uma nova paixão.

Talvez sejam homens inseguros, que desconfiam não ser capazes de manter as mulheres apaixonadas por muito tempo e preferem descartá-las antes que o envolvimento casual se transforme em algum tipo de relacionamento. Difícil encontrar respostas. Tipos como esse, no entanto, estão por toda parte. E nem sempre são tão descarados.

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Para amar é preciso parar de jogar

xadrez

Todo mundo já leu ou ouviu que não há bula, receita, fórmula mágica ou regras para construir e viver um relacionamento amoroso. Ainda assim, no entanto, vemos constantemente pessoas utilizando-se de jogos, artimanhas, interpretações, insinuações e ações premeditadas para conquistar alguém.

Quer exemplos? Não ligar no dia seguinte para não demonstrar interesse, não ter relações sexuais na primeira noite para não parecer fácil, não atender telefonemas para não parecer desespero, mandar mensagem em uma hora determinada para causar impacto, não apresentar a família para não insinuar relacionamento, não firmar relacionamento para não demonstrar que gosta da pessoa. E tantas coisas mais.

Ou seja: muitas pessoas lidam com o amor como se fosse um jogo. Em que um perde e o outro ganha. Em que um deles se apaixona depois de várias táticas. Em que se apaixonar é um ato de fraqueza. Em que é necessário deixar sempre alguém disponível, guardado na estante. Em que conquistar alguém é mais importante do que viver um relacionamento. Em que dizer o que sente é errado.

Basta olhar para os lados e observar que maior parte das pessoas deseja um amor, mas faz de tudo para não se envolver emocionalmente. Tentando manter o controle da situação, direcionando técnicas de conquista, evitando demonstrar seus sentimentos e se relacionando com mais de uma pessoa ao mesmo tempo para não se apegar a nenhuma.

Desde que ninguém esteja sendo enganado e não haja promessas, não há mal nenhum em “pegar sem se apegar”. É inclusive de uma honestidade admirável deixar claro que não quer ter um relacionamento naquele dado momento. Mas se você quer um amor, você está fazendo tudo errado. Para amar é preciso se apegar.

Atenda o telefonema, ligue no dia seguinte e perca o medo de fazer papel de ridículo. Porque amar é ser ridículo mesmo. Amar não combina com jogos de conquistas, ações predeterminadas, comportamentos ensaiados. Amar é não controlar os sentimentos. É se deixar levar por cada um deles.

Se você quer amar, pare de jogar. Pare de ensaiar. Pare de formular frases. Pare de dizer não quando quer dizer sim. Pare de fingir. Pare de demonstrar o que não é.  O amor não depende da leitura da arte da guerra. Depende de sentimentos. Depende de ouvir o coração.

O amor acontece quando menos se espera. Mas só para quem está convencido de que a lógica e a razão não combinam para as coisas do coração. Só para quem para de jogar.

“Quem um dia irá dizer que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer
Que não existe razão?”

Renato Russo

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