Arquivo da tag: responsabilidade

Se não quer relacionamento não culpe os outros

Eu vejo muita gente reclamando que hoje em dia ninguém quer nada sério, que ninguém quer compromisso, que não tem ninguém que valha a pena. Se você é uma dessas pessoas, por favor, responda com sinceridade: você quer um relacionamento sério? Você quer compromisso? Você vale a pena? Não precisa responder para mim, responda a si mesmo.

Essas perguntas, ainda que pareçam sem sentido, tem uma justificativa: vejo muita gente falando que quer compromisso, que problemáticos, desapegados e descompromissados são os outros, sem ter vontade genuína de viver um relacionamento duradouro.

Sempre defenderei o amor, a vida a dois, o casamento e relacionamentos longos. Embora o mundo tenha evoluído bastante, se apaixonar por alguém e se permitir viver uma relação continua atual. Amar nunca está fora de moda. Nem antigo. Nem passado.

Esclareço, no entanto, que manter longos relacionamentos não é obrigatório. Assim como casar também não. E, mais do que isso: ninguém é mais feliz por ter alguém. Somos seres completos. Não somos partes, não nos completamos em ninguém a não ser em nós mesmos. É Claro que quem ama quer ver o outro feliz e se preocupa com a sua felicidade, mas a felicidade do outro não é sua responsabilidade.

Eu não sei ao certo o porquê estou escrevendo essas coisas. Mas vendo tanta gente infeliz no amor, ou infeliz por estar sem um amor, eu queria dizer que não é possível sem feliz com alguém sem antes ser feliz sozinho. Também quero dizer que muita gente está sozinha por sua própria causa, e não do outro.

Amar exige cuidado responsabilidade e entrega. Exige prestar atenção no outro e não só em si mesmo. O amor é bom, mas é um compromisso. Diário. Que muitas pessoas que vejo reclamar da ausência de um alguém não estão dispostas a ter. E não precisam estar dispostas, entende?

O que me incomoda é o discurso de que a causa de estar sozinho é um problema de outra pessoa. Com a incapacidade que algumas pessoas têm de se responsabilizar pela própria vida. Você está sozinho porque quis. E isso é ótimo. Está sozinho por ter se livrado de um traste, por não ter se apaixonado na mesma medida que o outro, porque viu que não amava tanto assim. Ou porque alguém terminou com você, o que faz parte. Ou ainda: você prefere ficar só.

Eu sei que em uma sociedade como a nossa às vezes é difícil admitir para si mesmo que prefere ficar sozinho do que acompanhado. Sei também que ninguém precisa ficar dando satisfação sobre a sua vida pessoal. Mas precisa, sim, ser verdadeiro com as suas vontades. Quer mesmo alguém com quem compartilhar a vida? Quais relacionamentos você está cultivando?

Não vai adiantar se relacionar com quem quer algosério, se você não quer. Como não é honesto encher o outro de esperança se não deseja manter um relacionamento. A vida pode ser mais simples. Sobretudo se você parar de reclamar, pensar no que quer, não culpar ninguém e respeitar a si mesmo.

Há amor no mundo, sim. Há quem queira amar.

linhaassinatura_GISELI

 

Anúncios
Etiquetado , , , , , , , ,

Em tempos de ódio

osgemeos

“Vontade de dar na cara de todo mundo que defende direitos humanos”, “é lésbica por falta de rola”, “gente drogada tem mais é que morrer”, “esse povo fica tendo filho para ganhar bolsa família, tem mais é que se foder”, “toda feminista deveria ser estuprada”, “essa aí é uma piranha”, “tinham que jogar uma bomba na favela e matar todo mundo, só tem bandido lá”, “mulher e negro não é gente”, “volta para a senzala”, “se meu filho for gay enfio a porrada”, “se fosse meu filho colocava para fora de casa”.

Nenhuma dessas frases foi criada por mim e, infelizmente, não são ficcionais. Foram copiadas de comentários do facebook e matérias em veículos de comunicação. São reais e manifestam a opinião de uma pessoa que existe, é de carne e osso e acessa a internet. Caso duvide da veracidade basta acessar algum portal e ler os comentários, onde ofensas e ameaças bem piores são escritas sem nenhum pudor. Porque ainda fiz questão de selecionar as menos violentas.

Com a desculpa de que é só uma opinião e a liberdade de expressão autoriza a dizer o que quiser, o mundo tem nos dado a oportunidade de conhecer as pessoas como realmente são: cruéis, violentas, vingativas, intolerantes, preconceituosas e más. E o ódio e a maldade são expressos das mais variadas formas, todos os dias.

Vejo ódio no líder religioso que clama amor ao próximo, mas abusa dos fiéis, prega intolerância aos homossexuais e jura que os ateus vão para o inferno. Nos pais que desrespeitam e humilham os filhos. Nos governantes que roubam verba (da merenda aos salários de servidores) e deixam os cidadãos à própria sorte. Nos professores que segregam, humilham e ofendem. Nos chefes que assediam funcionários, moralmente ou sexualmente.  Nos delegados que transformam a vítima em culpada. Nas leis que não servem à justiça, mas ao bel prazer de quem pode pagar mais. Nos “homens de bem” que desejam o mal a quem discorda deles.

Vejo o ódio em cada um de nós. Rotineiramente. Em forma de gritos, xingamentos, ameaças, “piadas” e “brincadeiras”. Nas salas de aula, empresas, bares, reuniões familiares. Porque nenhum lugar está imune ao ódio, ao preconceito, ao mal. E cada dia fazemos mais parte dele. Por isso eu, que queria falar sobre amor, hoje falo sobre o ódio.

O que está acontecendo com as pessoas? Como podem desejar a paz agredindo verbal e fisicamente as pessoas? Por que estão lançando ódio e preconceito contra todos os outros? Por que estão misturando posições partidárias e políticas em todas as discussões? Por que estão pensando em soluções ainda mais violentas para a violência atual?

Mesmo com medo precisamos nos posicionar diante de tanta maldade. Precisamos dizer a quem conhecemos que não faz sentido defender pessoas que se mostram favoráveis a estupro, por exemplo. Que não é admissível aceitar que, em meio a uma discordância, as pessoas ameacem umas às outras. Que chamar negro de macaco e dizer para um menino que ele vai virar “mulherzinha” não é brincadeira. É só preconceito mesmo.

O momento atual está nos levando à exaustão, mas não podemos desistir de explicar o óbvio. Como por exemplo, que discursos de ódio não são opiniões. E que denunciar incitação à violência não é ser contra a liberdade de expressão. Que ninguém é assaltado, porque esqueceu a porta aberta, nem estuprado, porque estava de roupa curta. Crimes acontecem, pois existem criminosos.

Dia a dia, pouco a pouco, estamos banalizando o ódio. Fazemos isso quando não pensamos na realidade que nos cerca. Quando nos calamos diante de uma injustiça. Quando acreditamos que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Quando ignoramos a desigualdade. Quando batemos de ombros e assumimos que não é problema nosso. Sendo que é. Porque se a sociedade é má, perversa e está cuspindo ódio, significa que as pessoas que nela vivem são más, perversas e estão cuspindo ódio. Que compactuam com uma cultura de violência. Em maior ou menor grau.

Da mesma maneira que não existiria um governo desonesto se os cidadãos fossem todos honestos, não haveria violência se todos os cidadãos que afirmam ser do bem não desejassem agressão e morte daqueles que têm opinião contrária. Portanto, precisamos refletir sobre nós mesmos. Sobre as pessoas que somos. Sobre as pessoas que desejamos ser. Sobre o mundo que desejamos. Sobre o que estamos fazendo para construí-lo.

Precisamos falar de ódio para perceber o quanto precisamos de amor. O amor se manifesta quando pensamos no bem comum, na integridade de todos e não apenas daqueles que fazem parte de nosso círculo. Quando ouvimos as pessoas ao invés de julgá-las e acusá-las. Quando seguramos um bandido até que a polícia chegue, mas não o espancamos. Quando mesmo com raiva não agredimos verbalmente nem fisicamente.

Em tempos de ódio precisamos cultivar o amor. No mínimo que fazemos. Todos os dias.

O amor, esse sim, é a grande revolução.

linhaassinatura_GISELI

Etiquetado , , , , , , , , , , ,
Anúncios
%d blogueiros gostam disto: