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“É bom que dá saudade”

Constantemente, quando digo que meu marido está viajando a trabalho, as pessoas afirmam com entusiasmo “é bom que dá saudade”, “assim o casamento não vai acabar nunca”, “que bom ficar longe do marido a semana toda e só encontrar no fim de semana”, “quisera eu que meu marido passasse a semana fora”.

Todas as vezes que alguém faz uma exclamação positiva sobre a distância eu fico me perguntando: que tipo de relacionamento ela tem para preferir o marido longe? Será que a pessoa que escolheu para viver atrapalha a sua rotina? Como deve ser a vida familiar de uma pessoa que afirma que estar longe de um membro é mais prazeroso que estar perto?

Pode ser que o casal esteja mal e nem tenha se dado conta ainda, mas, na maior parte das vezes, desconfio que pessoas que fazem afirmações desse tipo nunca tiveram a oportunidade de conviver com uma rotina de viagens constantes do companheiro, com despedidas e reencontros. Não sabem o que é conviver com uma rotina de viagens curtas seguidas ou mesmo de um longo período ininterrupto.

Quando o parceiro viaja esporadicamente, seja para participar de um curso, visitar um familiar ou mesmo a trabalho, é uma coisa. E é provável que alguns casais se entusiasmem com as novidades trazidas pelo companheiro. Mas essa é uma experiência bem diferente de quem tem as viagens como rotina. De quem convive com alguém que faz e desfaz malas toda semana. Ou fica meses longe de casa, como algumas profissões exigem.

Por mais que a tecnologia facilite bastante a comunicação e faça com que a distância pareça menor, nada substitui a presença, a rotina, o dia a dia, a convivência. Nada substitui um abraço, um beijo, um colo. Num momento de tristeza ou alegria, é muito melhor quando o outro está presente. Para uma palavra amiga ou um silêncio de apoio que toda tecnologia existente ainda não conseguiu suprir.

Fico imaginando o casal com filhos pequenos em uma rotina de viagens. É claro que dá para falar ao telefone, mandar mensagens, gravar vídeos e áudios e acompanhar o crescimento da criança. Mas pelos olhos de quem está com ela todo dia. Não os seus próprios. Por mais que o parceiro conte as novidades, leia a agenda, conte que o filho fez algo incrível ou teve um comportamento inadequado quem viaja não estará lá para um abraço apertado ou uma bronca. E isso faz diferença.

Não digo com isso que as crianças não compreendam e que os pais que estão longe serão menos importantes na vida dos filhos. Acho até que os pequenos sabem lidar muito melhor com essa rotina. Provavelmente aquele que vive constantemente longe de casa é que deve sofrer imaginando que não faz falta à rotina, que o filho está aprendendo com outras pessoas o que ele gostaria de ensinar e que estaria mais feliz se pudesse estar presente nas pequenas conquistas diárias.

Viagens a trabalho não são motivos para enfraquecimento da relação, mas é preciso sim uma dose a mais de cuidado para manter o amor à distância. Para que a pessoa participe da sua vida e da vida familiar estando à quilômetros. Todas as relações precisam de diálogo constante, mas aquelas com integrantes viajantes precisam valorizar ainda mais a comunicação para que a distância seja apenas física e não emocional.

Quanto à saudade, é claro que pessoas que se amam e ficam distantes por um período sentem falta uma das outras – ou deveriam. E fazem de cada reencontro uma festa. Mas não é tão simples quanto a maioria imagina. Portanto, valorize a presença de quem você ama. Se a convivência for insuportável e você deseja ver o companheiro longe, reflita se vale a pena continuar essa relação, porque com viagem ou sem viagem, com distância ou sem distância, não há milagre que faça um relacionamento melhorar se ele já acabou.

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O amor morre aos pouquinhos

 

Já escrevi várias crônicas defendendo que o amor é construído todos os dias, que não importa o tempo de relacionamento é preciso cuidado, que uma relação a dois é resultado de uma escolha consciente e pode melhorar cada dia mais. E continuo acreditando nisso. Mas, assim como o amor cresce e se fortifica aos pouquinhos, com o fim do amor acontece exatamente a mesma coisa.

Ninguém acorda num dia, olha para o parceiro, descobre que não o ama mais, vira as costas e vai embora. O fim do amor não é repentino, mas o resultado de uma convivência desarmônica, sem diálogo, brigas constantes, falta de respeito, desatenção e desvalorização do outro. Todos nós já tivemos a oportunidade de conhecer diversos casais que se amavam muito, pareciam feitos um para o outro e se separaram.

Por que os amores chegam ao fim? Alguns afirmam que se chegou ao fim não era amor. Mas a verdade é que o amor, embora imprescindível para os relacionamentos, não basta para que eles deem certo. O pragmatismo da vida cotidiana exige empenho, dedicação e cuidado com a relação.

Algumas pessoas olham para o seu par e não sentem mais admiração, nem desejo, nem vontade de compartilhar a vida com ela. Às vezes nem se dão conta disso. Inconscientemente, vão criando maneiras para ficarem sozinhas, deixando de conversar sobre o futuro, esquecendo os planos que tinham em comum, deixando de cobrar a presença do outro, de pensar na vida a dois.

Geralmente o amor acaba por pequenos detalhes. Não resolver os pequenos dilemas cotidianos, aceitar atitudes com as quais não concorda, deixar de demonstrar afeto, seja por meio de palavras ou gestos, agir de maneira grosseira, expor o outro em público, não fazer acordos. Atitudes como essas, por exemplo, com o passar do tempo vão se tornando barreiras intransponíveis e distanciando as pessoas umas das outras.

Muitos acreditam que depois de conquistar a pessoa amada não é mais necessário se preocupar com a relação, que o outro estará sempre disponível e aceitará todas as suas atitudes. Ledo engano. O amor não é um jogo. E, se fosse, não estaria ganho depois que o casal junta as escovas de dente e vive sob o mesmo teto.

É aos poucos que o amor se transforma, solidifica, cria raízes e aumenta mais a cada dia, também é aos poucos que ele morre. Dia após dia. Sem que você perceba. Portanto, cuide bem do seu amor.

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O que é um casamento?

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Recentemente uma das minhas amigas ouviu que não parecia uma mulher casada. A razão? Ela não usa aliança, não adotou o nome do marido, não tem planos de ter filhos e sai desacompanhada. Podemos resumir uma união a uma aliança? A um sobrenome? A estar sempre acompanhada? Mas, o que é um casamento, afinal? E o que significa estar casada?

Casar é muito mais do que morar sob o mesmo teto, usar aliança, assinar contrato, adotar o nome um do outro, ter filhos, comprar um imóvel, ter bênção religiosa ou uma festa incrível. Envolve mais do que convenções, padrões sociais e rituais. Embora possa envolver tudo isso também.

Convivo com outras mulheres que não usam aliança, não adotaram o nome do marido, não oficializaram a união por meio de um contrato ou cerimônia religiosa. E se consideram casadíssimas. Você olha para elas e os seus companheiros e não tem dúvida de que formam uma dupla genial, um casal parceiro, que se ama e encontrou a felicidade.

Também conheço mulheres que casaram de véu e grinalda, tiveram a bênção do padre, fizeram festa, assinaram papeis, adotaram sobrenome do marido, viajaram em lua de mel, tudo como manda o figurino, mas por razões profissionais vivem em casas separadas dos maridos. São casados à distância. E estão casados mesmo. Não só pela mudança do estado civil, mas pela parceria, amor, cuidado e atenção com o outro mesmo estando distante fisicamente.

Hoje fico emocionada com festas de casamento e considero a frase “quer casar comigo?” uma das mais lindas declarações de amor. E vejo graça, sim, em assinar papeis, fazer contrato, ter certidão de casamento. Se as pessoas estão dispostas a enfrentar tanta burocracia quando nem é mais preciso, a relação deve significar alguma coisa para a vida delas.

Mas casamentos são muito mais do que dizer sim diante de convidados e alianças são mais do que adornos que enfeitam os dedos. Porque casamento é um projeto de vida em comum. E não é um papel assinado e um anel de ouro que tornará as pessoas verdadeiramente comprometidas uma com a outra.

Talvez um verdadeiro casamento seja isso: um projeto de vida a dois. Que se fortalece ainda mais com a rotina. Independente de troca de alianças, vestido de noiva, bênção religiosa, papel assinado. Porque não adianta acreditar que duas pessoas vão viver um relacionamento só porque cumpriram um ritual.

Você pode usar vestido de noiva, escolher os melhores amigos para ser os padrinhos, casar no cartório ou na igreja, adotar o sobrenome do cônjuge, fazer festa, usar aliança na mão esquerda, estar junto há dez meses ou dez anos, e não viver um casamento. Porque, ainda que seja casada perante a lei e a sociedade, casar é mais do que um estado civil e a realização de protocolos.

Casamento é entrega. É convívio. É intimidade. É troca. É amor. É planejamento familiar. É dia a dia. É rotina. É convivência. Vai muito além de promessas, juras de amor e cerimônias. São casados aqueles que encontraram um aliado para a vida, um parceiro, um amigo, um amante, na mesma pessoa. Havendo ou não qualquer tipo de convenção ou ritual.

O amor ultrapassa qualquer protocolo e é vivido na simplicidade da rotina.

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O primeiro ano de casamento

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Dizem que o primeiro ano de casamento é o mais difícil de todos e que só conhecemos alguém verdadeiramente quando vivemos sob o mesmo teto. Sobre a minha experiência pessoal tenho a dizer que o meu primeiro ano de casada tem sido muito mais fácil que o tempo de namoro. Quanto a descobrir o outro, acredito que nem sob o mesmo teto conhecemos alguém – porque estamos continuamente em construção.

Por que, então, eu vou escrever sobre casamento? Para dizer que a única coisa verdadeira que nos dizem sobre viver a dois é que não existe manual para uma relação feliz e bem sucedida. Diferente dos contos de fadas, em que as histórias terminam com o clichê “foram felizes para sempre” depois que o príncipe e a princesa se beijam, na vida real não é assim tão simples. Não existe felicidade contínua e ininterrupta. Você não vai ser feliz só porque casou. Casamento não é o fim da história. É só o começo.

Depois de juntar as escovas de dente e compartilhar a vida é que a história do casal começa. Não importa quantos foram os anos de namoro, se teve festa, papel passado, troca de alianças. Casamento pode envolver tudo isso. Mas casamento é muito mais do que isso. Casamento é compromisso. E para isso não importa namorar um mês ou dez anos. Conheci casais que namoraram mais de uma década e não toleraram meses de casamento. Já vi amores de carnaval se transformarem em relações duradouras e harmoniosas.

São muitas as histórias de mulheres que choraram nos primeiros meses de casada. Por diversas razões: se depararam com uma realidade bem diferente da que imaginavam, descobriram aspectos de seus companheiros que até então desconheciam, se viram sobrecarregadas com a rotina, porque seus maridos não demonstraram interesse nenhum em compartilhar os afazeres domésticos e exigem que as mulheres organizem suas vidas – desde o café da manhã ao agendamento de consultas, por exemplo.

Por que é tão difícil conviver com quem se ama? Infelizmente, homens e mulheres ainda são educados de maneiras muito diferentes e têm perspectivas diversas sobre uma relação a dois. Além disso, somos alimentados com ideia de que o casamento é garantia de felicidade, que sob o mesmo teto as pessoas vão mudar e o que o amor tudo resolve. Talvez essas sejam algumas das causas de tantas frustrações amorosas, principalmente no início do relacionamento. O amor não é um fim em si mesmo e o romantismo é um estraga prazeres. No dia a dia não há espaço para ilusões. A vida é pragmática demais para os sonhadores.

Um casamento feliz é resultado de uma rotina harmoniosa e de uma aceitação genuína da pessoa com quem você convive. Todos nós temos inúmeros defeitos e, tendo tido criações e experiências diferentes, as pequenas divergências podem se tornar um abismo quando temos que lidar com elas diariamente. Mas ao olhar o outro com amor esse abismo tende a diminuir. E com amor significa sem julgamento e com uma vontade enorme de compreender, porque conviver de maneira saudável com alguém depende de praticar a empatia e comunicar o que sentimos.

Fizeram com que acreditássemos que quem ama é capaz de interpretar o que o outro sente, o que quer, o que deseja. Que basta dar sinais, deixar subentendido ou insinuar alguma coisa que tudo será resolvido. Não será. Infelizmente não será. Não caia na armadilha de deixar com que o outro interprete. Exponha os seus planos, os seus desejos, as suas insatisfações, o que te agrada ou desagrada. Sob o mesmo teto não há nada mais eficiente do que verbalizar. Mas não verbalize apenas o que te incomoda. Você casou, mas precisa continuar dizendo o quanto ama a pessoa com quem está.

O primeiro ano de casamento é crucial para determinar os anos que virão, pois é quando o casal decide como vai ser a rotina, o que estão dispostos a tolerar ou mudar para conviver em harmonia. Neste período estão se ajustando, organizando a vida, colocando tudo em ordem e imaginando o futuro juntos. Isso não significa que as regras, os acordos, as decisões tomadas não possam ser mudadas aos longos dos anos, mas norteia como as coisas serão resolvidas.

Mesmo os mais utópicos e sonhadores descobrem que só o amor não mantém relacionamento nenhum e que ninguém se sentirá completo por conta de um estado civil. Mas descobrem também que só é possível vencer as adversidades quando o amor está ali bem vivo, transformando a experiência de viver a dois em aprendizado, dizendo que vale a pena experimentar as delícias de amar e ser amado.

Você pode olhar para os casamentos alheios e tirar deles lições para o seu, comprar livros de como viver um casamento feliz, pedir conselhos, mas nada disso irá adiantar se você não olhar para si mesmo e para pessoa que ama. Se não decidirem juntos como desejam viver e o que esperam da relação a dois.

Cada casamento tem uma história. Escreva a sua sem medo.

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O primeiro ano de casamento é para os fortes

Foto de David Jay

Foto de David Jay

Você pode pegar um texto escrito por alguém casado há mais de 50 anos ou por alguém que está casado ou mora junto há pouco menos de um ano, como é o meu caso, que, no fim (ou mesmo antes da conclusão do texto) você vai perceber que todos os autores sempre vão tentar te induzir ao mesmo raciocínio: não existe receita para um casamento feliz. Menos, é claro, aqueles autores que estão tentando te vender alguma “fórmula mágica” que, obviamente, não existe. Existem estratégias, sim. E isso, sem dúvidas, o tempo de convívio ajuda muito. Dizem que o primeiro ano é o mais desafiador – para não dizer infernal – de todos. Em minha defesa, devo dizer que isso é… bom, é a mais pura verdade.

Há alguns anos, saí de uma outra relação da qual não sobrevivi ao primeiro ano de convivência, apesar dos anos de namoro que antecederam àquela experiência. Teria sido traumático se estivéssemos falando de alguém com reações normais, que se traumatiza e nunca mais se permite passar por nada semelhante na vida. Mas a pessoa em questão sou eu e, felizmente, eu não aprendo. Digo felizmente porque é graças a essa característica que hoje vivo a sorte de um amor tranquilo. Ok, nem tão tranquilo assim, mas maravilhoso, apesar de todas as provações do primeiro ano de “casamento” (e as aspas ali no casamento só se justificam porque não é oficial, mas funciona como qualquer união estável, com ou sem papel passado).

Um casal que se propõe a ler livros do gênero “Casamento Blindado” não garante o sucesso, tampouco a blindagem da relação, bem como uma mulher ou um homem que adora ler e se junta com alguém que não tem o hábito da leitura – nem pretende ter, diga-se de passagem – não determina o fracasso do relacionamento. Nada disso faz muito sentido pra mim! Ora… como se o fato de um cara não ler Nietzsche ou nunca ter ouvido falar em Proust fosse fazer alguma diferença na hora do “vamu vê”, ou se o fato da moça gostar de ler Saramago e ser fã da Lispector a tornasse menos atraente. Se ainda fosse um Paulo Coelho, tudo bem, mas… como o gosto literário não está em questão aqui, voltemos a falar mal do casamento.

O que eu aprendi neste primeiro ano que completo de casada? Tantas coisas que daria para escrever um livro para vender fórmulas nada mágicas de sobrevivência aos primeiros doze meses de vida conjugal, mas a primeira e mais importante delas é que, acima de tudo e de todos, é preciso querer estar junto. E não basta que um queira, tem que ser os dois! É preciso que os dois queiram muito estar ali. Se essa vontade não for mútua e intensa, a casa cai. Porque, no princípio, os tijolos da casa estão se levantando devagar, a estrutura ainda não está suficientemente firme e é provável que uma parede ou outra se desmorone de quando em quando e que os dois precisem levantá-las juntos uma ou mais vezes. Portanto, tem que ter um bocado de disposição e habilidade.

Pegue duas pessoas com personalidades absolutamente diferentes, criadas de forma absurdamente distintas, quase dois seres extraterrestres que nem sabiam da existência de vida no planeta um do outro, agora coloque-os dentro da mesma casa. Faça-os dormirem e acordarem todos os dias juntos, dividirem tarefas e responsabilidades e faça-os entrarem em acordo na mais perfeita ordem e harmonia sem nunca, jamais, sob hipótese alguma entrarem em desavença. Isso! Agora escreva um conto de fadas!

Na vida real, eu experimentei morar com meu marido num cubículo por quase todo o período desse primeiro ano, de modo que nem mesmo a briga mais séria nos impedia de ficarmos grudados, uma vez que nosso antigo apartamento tinha um único cômodo e éramos obrigados a nos suportar mesmo nos dias menos propícios ao amor e à luxúria. Foi uma experiência e tanto! Quase uma prova de fogo e nós sobrevivemos. Nada garante que sobreviveremos as próximas provas que virão, pois sabemos que virão. Sempre virão. A única certeza que nós temos é que continuamos dispostos e que a vontade de permanecermos juntos e tocarmos em frente só faz crescer. E isso pode até parecer pouco, mas não é.

Num mundo repleto de ofertas, com tantos peitos e bundas durinhas por aí, sexo fácil a cada esquina, prazer momentâneo, falta de compromisso, o que significa diretamente ausência de comprometimento, de cobrança e satisfação para poder fazer o que bem entender sem qualquer tipo de interferência e/ou opinião alheia, escolher permanecer ao lado de alguém por livre e espontânea vontade é uma coisa muito linda, gente!

Mas a gente continua sedento por escutar belíssimas histórias de amor, não é? Então toma essas:

Era uma vez um casal que tinha uma infiltração no teto do quarto. A esposa ia lá e pedia para o marido subir no telhado e consertar a telha quebrada, o marido prometia que ia subir, mas nunca subia, veio a chuva forte e formou-se uma goteira enorme bem em cima da cama do casal. No dia seguinte, a esposa chamou o pedreiro, que resolveu o problema em cinco minutos.

Era uma vez uma esposa consumista. O marido pedia incansavelmente para ela comprar menos sapatos, mas ela não se controlava e cada dia chegava em casa com um par de sapatos novos. Um dia ele ligou para o banco e, em cinco minutos, cancelou o cartão de crédito que eles tinham na conta conjunta.

E eles viveram felizes para sempre.

Seria lindo se antes de chamar o pedreiro, a mulher não tivesse cobrado uma atitude do marido uma centena de vezes até que ele sentisse vontade de subir no telhado – não para consertar a telha, mas para se jogar lá de cima, e se o marido, por sua vez, antes de ter percebido a compulsão da mulher e tomado as rédeas da situação, não tivesse reclamado exaustivamente com ela, a ponto de obrigá-la a comprar sapatos escondida, como quem comete uma infidelidade . E seria mais lindo ainda se nenhuma dessas pequenas coisas do dia-a-dia não enlouquecessem os casais pouco a pouco. Mas enlouquecem, e levam ao extremo da separação, por isso a vontade de estar junto tem que ser tamanha para superar os minúsculos suicídios diários que cometemos contra a mesma relação que desejamos com tanto afinco que dê certo.

Defeitos todos temos. E todo defeito, por menor que seja, de perto, pode se tornar um abismo. O desafio é não deixar que os abismos se tornem tantos e tão grandes a ponto do afastamento não permitir que a gente consiga criar e atravessar as pontes que nos aproximam. Mas falar é fácil, né? Na teoria, metáforas com abismos e pontes é uma graça. Na prática, o defeito do outro tá muito mais para um buraco negro, é infinitamente mais difícil de lidar e, pra ser muito franca, as vantagens de estar numa relação precisam ser bem razoáveis para compensar.

O que faz a engenharia da coisa toda funcionar é muito simples. E, se a gente parar pra observar bem, é a mesma engenharia complexa que faz tudo desandar também. O problema, geralmente está nas peças, ou seja, em nós.

Por aqui os sinais de que as peças andam minimamente ajustadas é ver o sorriso largo que ele dá quando entra em casa e percebe que eu já cheguei do trabalho. É ouví-lo se queixando todas as noites de como o tempo passou depressa só porque a gente finalmente se encontrou depois de mais um dia daqueles. É perder a hora todas as manhãs porque vai ficando cada vez mais difícil conseguir nos desgrudar. É, também, ter a oportunidade de dizer “eu te avisei” e optar pelo silêncio, por mais tentador que seja.

E a gente vai vivendo junto e vai experimentando as dores e as delícias de amar, aprender e viver o outro.

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