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Relações violentas

Recentemente me colocaram em um grupo, no facebook, sobre relacionamentos abusivos. Um grupo com milhares de mulheres e uma série de conteúdo sobre violência contra a mulher e, sobretudo, relatos sobre relacionamentos abusivos. Muitas mulheres pedem ajuda para analisar o modo como são tratadas e identificar se os seus companheiros são abusivos ou não.

Por que estou escrevendo sobre isso? Porque muitas vezes ouvimos que algumas mulheres gostam de apanhar, gostam de ser “mulher de malandro”, estão em relacionamentos violentos e abusivos porque querem e escolheram. Mas, dentro de uma relação doentia, muitas pessoas perdem o seu referencial, têm dúvidas se estão sendo respeitadas ou não, algumas vezes não viveram outras experiências e nem sabem como funciona uma parceria saudável.

Estou certa de que nenhuma mulher gosta de ser agredida, humilhada, destratada, insultada, traída, ameaçada, amedrontada. Nenhuma. Mas algumas nunca chegaram a conhecer o que é amor, nem mesmo dentro de suas próprias famílias. Outras se apaixonaram por homens que, inicialmente, eram amorosos, e aos poucos apresentaram suas faces manipuladoras, abusivas e violentas.

Pessoas são universos complexos e os motivos que as levam a continuar em relações que fazem mal são mais difíceis de julgar do que podemos imaginar. São inúmeros os motivos. Algumas mulheres não têm para onde voltar, dependem de seus companheiros financeiramente, suas famílias não as aceitam de volta, têm filhos e acreditam que uma separação será dolorosa demais para as crianças, acreditam que são culpadas pelas agressões que sofrem, acham que merecem passar por todo o sofrimento que vivem, pensam que o companheiro irá mudar e que elas são responsáveis pelo comportamento deles.

Cada pessoa tem a sua história. Que não nos cabe julgar. Aliás, todo o julgamento que temos feito ao longo do tempo, colocando nossos dedos em riste para afirmar que cada um tem o relacionamento que merece e sofre porque escolheu, afasta ainda mais a possibilidade dessas mulheres falarem abertamente sobre seus sofrimentos e procurar ajuda.

Então, toda vez que sentir vontade de julgar uma mulher que sofre – ou sofreu – qualquer tipo de agressão por parte do companheiro e comentar “como ela continua essa relação?”, “merece passar por tudo isso mesmo”, “como ela ainda corre atrás dele?”, “voltou para ele porque gosta de sofrer”, faça o exercício de se colocar no lugar do outro. Eu sei que é difícil, mas procure entender que tomar a decisão de se livrar de algo que faz mal também é doloroso – principalmente quando a violência é tanta que a pessoa envolvida nem sabe mais como é viver em paz.

Sobre violência é bom ressaltar que nem toda agressão é física. Se a pessoa com quem você se relaciona te ameaça, te impede de falar com os amigos, te isola, diz que você é incapaz de atingir seus objetivos, pede suas senhas, vigia o que você faz, te persegue, obriga a fazer sexo, se recusa a usar preservativo, retém seu dinheiro, não te deixa estudar ou trabalhar, lamento dizer: esse é um relacionamento abusivo.

O amor precisa fazer bem. Não pode deixar cicatrizes no corpo nem na alma.

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O que não é amor

É difícil definir o que é amor. Já escrevi centenas de crônicas tentando, mas tenho a sensação de que não consegui descrever com exatidão, porque explicar, denominar e definir sentimentos não é algo simples e varia de pessoa para pessoa. Então hoje eu vou explicar o que não é amor. Mesmo quando parece.

Quando as pessoas precisam estar em algum relacionamento, pois têm medo de ficar sozinhas, acham que o correto é viver em uma relação amorosa e não gostam de fazer atividades sozinhas, provavelmente elas não amam o parceiro. Só são carentes mesmo. Da mesma maneira que se permanece ao lado de alguém por pensar que a é pior ficar sozinho, ela pode ser apenas insegura e dependente, não necessariamente amar o outro.

Sentir atração sexual é importante em uma relação amorosa, mas se vocês combinam apenas sexualmente, não há amor nessa relação. Há desejo. E, se por outro lado, você não tem o mínimo desejo pelo outro, apenas prazer em estar em sua companhia, pode ser que haja apenas amizade.

Coração disparado, voz ofegante, mãos trêmulas e suadas quando vai encontrar a pessoa, ou ouve sua voz, ou vê o nome dela no visor, não é amor. É paixão. Pode ser que um dia vire amor, alguns amores começam assim, mas ainda não é.

Se qualquer coisa vira uma briga interminável, seja dar uma notícia, exprimir sua opinião ou dividir um plano, por exemplo, provavelmente há ausência de amor. Pessoas que se amam não vivem constantemente com medo da reação do outro ou nem sabem como vai reagir.

Quando a pessoa não demonstra atenção, não se preocupa, não tem cuidado com o outro, nunca está presente para ajudar, ela não ama. Pode parecer clichê e talvez seja mesmo, mas quem ama se importa.

Se a pessoa com quem você está não se alegra com as suas conquistas, não torce pelo seu sucesso e quando algo bom acontece ainda se sente por baixo, ela não te ama. Talvez uma das mais genuínas demonstrações de amor seja ficar feliz pela felicidade do outro. Como se fosse sua.

É preciso aceitar também a realidade de que violência não é apenas agressão física. Conviver com alguém que te obriga a utilizar certas roupas, vigia seus passos, utiliza expressões pejorativas para se dirigir à você, diminui a sua autoestima, te obriga a manter relações sexuais são exemplos de violência.

Relacionamentos doentios e tóxicos são mais comuns do que imaginamos. Mas eu estou aqui para dizer que o amor é uma coisa boa. Se por alguma razão o que você está vivendo não é, vale pensar se é por uma situação pontual – doença, desemprego, problemas familiares – ou se o comportamento do companheiro sempre foi ruim, negativo e destrutivo.

Para viver e conhecer o amor que você merece, antes vai precisar se livrar de tudo o que não é amor.

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O amor não mata

desamor

Homem invade uma casa no réveillon, comete uma chacina e entre os mortos estão sua ex-mulher e o filho. Deixa uma carta para justificar que mataria por amor, pois estava sendo impedido de ver a criança.

Um homem ataca a ex-namorada com ácido deixando-a com graves feridas no rosto e correndo o risco de perder a visão.

Cônjuges traídos ou inconformados com o fim do relacionamento matam suas companheiras, divulgam fotos íntimas na internet para se vingar e chamam isso de crime “passional”, dando a entender que o amor motivou o crime.

Uma mãe esfaqueia o filho até a morte por ele ser homossexual.

Um pai abusa sexualmente de sua filha, ela engravida, tem o filho dentro de casa e ele pega a criança recém-nascida e joga fora.

Infelizmente nenhumas dessas histórias foram criadas por mim. Basta abrir qualquer portal de notícias para se deparar com essas e tantas outras atrocidades. Muitas justificadas por amor. Mas eu estou aqui para dizer que o amor não mata, não fere, não agride, não humilha. Violência nunca é sobre amor.

O amor pondera, tolera, aceita as diferenças, tenta compreender o outro, encontra uma maneira sadia de resolver qualquer situação adversa. O amor é bom, não deseja o mal de ninguém. Quem ama quer ver o outro feliz.

Não importa se é seu pai, mãe, amigo, namorado, filho, tio, avô, avó, madrinha. Se te ameaça, espanca, menospreza, faz com que você se sinta mal, te deixa com medo, impede de dar suas opiniões, te persegue, prejudica seus relacionamentos afetivos e faz com que você perca a vontade de viver, essa pessoa não te ama.

Um pai impedido de ver o filho procura um advogado, escolhe um mediador para tentar conversar com a ex, mas nunca mata o filho. Assim como um homem inconformado com a separação chora, enche a cara num bar, faz uma poesia, joga fora todas as lembranças. Mas não mata a mulher.

Uma mãe religiosa, que aprendeu que homossexualidade é pecado, pode ter dificuldade de aceitar a orientação sexual do seu filho. Mas não mata. Porque quem ama acolhe, busca o diálogo, procura entender e, ainda que não concorde, aceita a diferença.

Ninguém bate, espanca, humilha, ameaça e mata alguém porque ama demais. Não acreditem nesse discurso. As pessoas matam e causam tanta dor porque estão vazias de amor. Porque não sabem amar. Porque não enxergam nada além de si mesmas, porque a vida dos outros não são importante para elas.

Nenhum crime é motivado por amor. Só pelo ódio. O ódio mata. O ódio fere. O ódio é intolerante. O ódio é egoísta. O ódio é preconceituoso.

Violência nunca é manifestação de amor.

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