Arquivo da categoria: Crônicas

O cuidado não é tarefa das mulheres

Somos ensinadas, desde pequenas, a cuidar e a servir. Lembram da infância? Ganhávamos bonecas, panelinhas e tudo que fosse ligado ao universo doméstico. Quando os meninos queriam fazer parte das nossas brincadeiras, geralmente, eram desestimulados pelos adultos e incentivados a brincar de outra coisa. Não na minha casa, mas essa é outra história que pode virar texto em outro momento.

Quem nunca ouviu que toda mulher tem instinto maternal? Que afazeres domésticos é coisa de mulher? Que se cozinha bem já pode se casar? Que mulheres têm mais habilidades para trabalhos manuais? Que os filhos precisam mais das mães? Poderia citar outros milhares de exemplos, mas não é necessário, pois creio que todos compreenderam o que quis dizer.

Por que estou dizendo isso, afinal? Porque, quando nos tornamos adultos, somos levados a acreditar que o cuidado é tarefa das mulheres. Em um relacionamento, portanto, muitas vezes as mulheres se veem sobrecarregadas com os afazeres domésticos, cuidados com os filhos e com os maridos – que, segundo pesquisas, chegam a dar mais trabalho que os filhos!

Maridos não são filhos. Mulheres não são responsáveis, sozinhas, pelo sucesso da relação. Filhos não precisam só das mães. O cuidado não é tarefa exclusiva das mulheres, embora a todo momento sejamos levados a acreditar que sim. Está cada vez mais claro para mim que não dá para edificar uma casa sozinha. Carregar esse fardo é desumano e cruel – e leva muitas mulheres à exaustão e sobrecarga.

No mundo em que eu vivo alguns homens preparam almoços e jantares, planejam viagens, lavam louça, limpam a pia, lavam roupa, separam o lixo, cuidam dos filhos – que algumas vezes não são seus. Atribuir a capacidade de cuidar somente às mulheres é ultrapassado, mas ainda há quem viva no século errado, não é verdade?

Cuidar implica em assumir afazeres chatos, como lavar louça, ir ao supermercado, trocar fralda de criança. Mas quando a gente ama e faz isso em conjunto, ou faz pelo cuidado com o outro, essas atividades ganham outra dimensão e aprendemos que o melhor nos relacionamentos são as vivências diárias com as pessoas que amamos.

É no cuidado com o outro que os laços familiares são solidificados, as conexões emocionais são fortalecidas, as relações com os filhos se tornam mais próximas e a nossa existência mais enriquecida. Quem ama cuida. Não num dia de festa ou ocasião especial, mas diariamente.

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Você não vai conseguir tudo o que quer

A ideia de que qualquer um pode ser e ter tudo o que desejar, bastando empenho e dedicação, tão difundida atualmente, me incomoda um pouco. Por mais força de vontade que tenhamos não conseguimos tudo que queremos, nem tudo vai ser do jeito que queremos. E nós precisamos aprender a lidar com isso.

Temos que nos responsabilizar pelo que acontece na nossa vida, mesmo nos momentos em que tudo parece estar fora de controle – a isso dão o nome de autorresponsabilidade. Mas, ainda assim, precisamos entender que não conseguimos, por maior que sejam os esforços, ter tudo o que queremos, do jeito que queremos, na hora que queremos.

Nem todo menino que gosta de futebol e diz que vai ser um jogador famoso, por exemplo, conseguirá realizar esse sonho. Muitos nem jogam tão bem assim e, dos que jogam, muitos não terão a oportunidade. Por mais que treinem, se matriculem em escolinhas, participem de torneis. Devem desistir antes de tentar? Se jogam bem, não. Se jogam mal devem entender que não farão desse esporte sua profissão.

Ao longo da vida vamos aprendendo a lidar com frustrações e a capacidade de adaptar nossos sentimentos e talentos à realidade. Não podemos viver só de esperança, pensamento positivo, determinação e obstinação. Até quando vamos insistir em algo que não dá certo na esperança de conseguir? Quanto tempo iremos perder tentando conquistar alguma coisa?

Conhecer nossos próprios desejos é importante, mas também é necessário entender que eles podem não se realizar. E isso não é fraqueza. É respeitar os nossos limites, sejam eles quais forem:  do nosso corpo, da nossa personalidade, do nosso temperamento, dos nossos sentimentos e daqueles que convivem conosco.

Cresci ouvindo a Xuxa falar “querer, poder e conseguir”, cantando que “tudo pode ser, só basta acreditar, tudo que tiver que ser, será”, versos da música Lua de Cristal. Todos os adultos, mesmo aqueles que não assistiam Xou da Xuxa, devem reconhecer que, infelizmente, não basta acreditar para conseguir. E, muitas vezes, nem se esforçar e se dedicar.

Tentou alguma coisa e não deu certo? O mundo não vai acabar. Você não é um fracasso. Você é gente. Gente que sofre derrotas, humilhações e injustiça. Que desempenha papel de mãe, pai, amigo, cônjuge, profissional, estudante, amigo. Gente que consegue muita coisa, mas não consegue tudo, pois na imperfeição da vida reside a nossa força de seguir em frente.

Texto publicado no blog da autora em 21 de junho de 2020.

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A Pandemia e a certeza de que muitos não sabem viver em sociedade

Cada cidade do país adotou uma medida para conter o avança do novo coronavirus. Em Niterói, onde moro, até lowckdown fizemos. Mas o que vimos? Pessoas sem máscara, mesmo depois que se tornou obrigatório, se recusando a manter a distância uma das outras, mesmo com sinalização nos estabelecimentos, correndo em grupo, mesmo sabendo que devem fazer exercícios sozinhos, indo visitar familiares, mesmo cientes de que ir para casa dos outros não é isolamento social, e até fazendo festas.

Um espetáculo de desrespeito, falta de empatia, descrença na ciência, despreocupação com o outro, deboche com as vidas tiradas com o vírus, indisciplina. E vimos, dia a dia, que muitos não estão preparados para viver em sociedade, não entendem que seus comportamentos afetam outras pessoas, não somente a si mesmo.

Muitas vezes, ao olhar pela janela, eu me senti uma idiota. Pessoas correndo, andando e se exercitando nas ruas como se nada estivesse acontecendo. Estamos em casa para que elas tenham as ruas livres? Mas depois me conformava com o fato de que agindo corretamente estava protegendo a mim e a minha família e nada poderia fazer sobre os outros.

Mas é difícil, sabe? Como ser tolerante com quem não tem compromisso com o respeito? Dá uma tristeza saber que para muita gente a vida alheia não tem valor nenhum. Que não seguem regras, não aceitam orientações, debocham da pandemia, agem como se tudo fosse uma farsa com o número cada vez maior de vítimas de covid19. No Brasil e no mundo.

A pandemia veio esfregar na nossa cara o que muitos de nós já sabíamos: a maioria não sabe viver em sociedade. Existem pessoas se julgam superiores a tudo e a todos, desrespeitaram as orientações e não se preocupam com ninguém. E elas estão entre nós.

Façamos nós a nossa parte.

Crônica publicada no blog de Giseli Rodrigues no dia 12 de junho de 2020.

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Amor e Dia dos Namorados

O Dia dos Namorados está chegando e, no Brasil, a data foi criada para melhorar as vendas do mês de junho, que sempre eram muito fracas. Deu certo: ela passou a ser a terceira melhor época para o comércio, só perdendo para o Natal e Dia das Mães. Com a pandemia, este ano o resultado das vendas não deve ser muito positivo, mas não pesquisei e é o texto não é sobre isso.

Estou aqui para lembrar que o Dia dos Namorados está chegando e que essas datas comerciais são uma oportunidade de manifestar amor, dar e receber presentes, fazer algo diferente e marcar uma comemoração. Não precisamos esperamos o dia 12 de junho para isso, claro, mas: por que não fazer neste dia também?

O Dia dos Namorados lembra que é preciso marcar dia e horário para celebrar o amor. Os afazeres, compromissos e responsabilidades do dia a dia muitas vezes nos fazem esquecer de olhar para a relação e dar atenção a quem amamos e, em meio a uma pandemia, com tantos problemas ao mesmo tempo, tendo que administrar uma nova rotina, pode ser ainda mais desafiador.

Nem só de espontaneidade vive o romantismo, mas também de planejamento e previsibilidade. Combinem de ver um filme juntos, começar uma série, preparar um almoço ou jantar diferente (ou pedir delivery!).

Eu queria dizer: aproveite todos os dias como se fossem dia dos namorados. Mas sabemos que não cabem nos dias dos adultos tantos dias e horários para comemorações. Por isso, se puder aproveitar no dia 12 de junho, aproveite. Se por alguma razão não puder, marque outro dia. Você pode, inclusive, definir uma outra data de comemoração e torná-la única.

Comemore a felicidade de ter a quem amar. No dia 12 de junho ou em qualquer outro dia. Feliz Dia dos Namorados!

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Demonstrações de amor nas redes sociais

As redes sociais fazem parte das nossas vidas e, principalmente neste momento de pandemia, em que muitas pessoas estão isoladas de familiares e amigos, percebemos a importância da tecnologia para as relações sociais. Estamos enviando muito mais mensagens, áudios e vídeos. Trabalhando, estudando, conversando e até fazendo confraternizações online.

Se antes separávamos vida “real” e “virtual”, hoje fica nítido que isso não existe. Somos seres integrais. Expressamos sentimentos, emoções, opiniões e nos comportamos em diversos ambientes, inclusive os digitais.

Em tempos modernos é impossível não perceber as relações de amor nas redes. E o peso que os status de relacionamento têm hoje na sociedade. Lembro que quando me casei, de papel passado e registro em cartório, meu filho disse em tom de ironia “se não trocou o status do facebook não se casou.” Ele falou brincando. Mas falou algo importante: as redes sociais demonstram quem somos e como estamos – por mais que seja apenas um recorte, uma parte do que desejamos mostrar.

As pessoas expõem os seus relacionamentos de maneiras diferentes. Algumas são mais calorosas, publicam fotos e declarações o tempo todo, outras mais reservadas. Cada um tem um jeito e, por isso mesmo, fica fácil identificar quando algo não vai bem. Quem publicava todo dia, repentinamente não faz uma declaração sequer em semanas, quem nunca publicava nada logo começa a publicar milhares de fotos.

Recém-separados também ficam evidentes, porque mesmo não falando absolutamente nada sobre o fim do relacionamento, excluem fotos a dois, começam a publicar mais fotos em festas, com amigos e, em tempos de pandemia, selfies com frases motivacionais. Aliás, fiquem atentos aos amigos que de uma hora para a outra começam a publicar fotos com legendas motivacionais. Se tiver intimidade entre em contato.

Eu acho linda toda forma de amor e suas manifestações. Como já gosto de um textão, não perco oportunidade de demonstrar afeto, principalmente, em datas comemorativas. Mas fico preocupada com as publicações de algumas pessoas que parecem querer se autoafirmar, apresentar um amor perfeito ou dizer que está tudo bem quando claramente não está. Não precisamos parecer felizes aos olhos dos outros, sabe?

Brigou? Está com problema no relacionamento? O casamento está em crise? Publicar foto romântica com palavras bonitas não vai melhorar a relação. Chore pelo fim da relação, não precisa postar que está bem. Aproveite a reconciliação, não precisa mandar indireta para a amante. Declare-se ao novo amor sem vergonha. Mude o status de relacionamento nas redes. Mas faça por você. Faça pela pessoa que ama. Não pelo que as pessoas que mal fazem parte da sua vida vão achar.

Demonstre amor, dentro e fora das redes. Mas seja sincero com seus sentimentos.

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