Um casal, dois inteiros

Como boa canceriana, sou romântica e acho lindo quando leio metade da laranja, alma gêmea, tampa da panela para se referir ao par amoroso. E já usei. Mas o que aprendi ao longo dos anos é que só duas pessoas inteiras podem construir um relacionamento saudável e feliz. Metades não se completam, pois, simplesmente, não existem.

Mas o que é ser inteiro se estamos em constante mudança, aprendemos a cada dia e convivemos com a frustação de que sempre há uma falta em nós mesmos? Ser inteiro é isso: a constatação de que somos incompletos, mas não há uma outra pessoa no mundo que completará o nosso vazio existencial.

O amor é lindo. Viver com alguém pode ser uma experiência maravilhosa se aceitarmos que não cabe a outra pessoa a responsabilidade de nos fazer felizes e que, ao encontrar o amor, não nos tornaremos seres completos. Continuaremos sendo o que sempre fomos, nós mesmos.

Relações duradouras ensinam bastante e percebemos que não somos mais quem éramos no início do relacionamento. O amor, a convivência, a vontade de querer que dê certo, com certeza, impactam a vida de cada um de nós. Mas todo amor nos transforma. A maternidade e a amizade, por exemplo, estão aí para provar.

Parece óbvio, e é, mas o óbvio precisa ser dito: depois que a paixão acaba e você enxerga a pessoa tal como ela é, o relacionamento não sobrevive se você não tiver consciência de que ninguém no mundo, a não ser você mesmo, pode atender as suas expectativas. O outro é o outro. Com qualidades, defeitos, erros, acertos. Uma pessoa comum, como tantas.

Não aceite um amor menor do que você merece, mas não caia na tentação de buscar eternamente alguém que não existe: a sua metade.  

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Por mais mimimi

“Hoje em dia não se pode falar mais nada”, “antigamente que era bom”, “hoje em dia tudo é preconceito”, “não se pode mais fazer uma piada, que já vem alguém de mimimi”. Quem nunca ouviu uma dessas frases? Ou todas? A narrativa de que as pessoas, principalmente as da nova geração, são vitimistas, irresponsáveis e reclamam de tudo, está presente no nosso dia a dia.

E eu fico muito feliz e orgulhosa que hoje em dia questionamos todo tipo de preconceito e lutamos pelas minorias. Se ofende alguém, não é piada. Se a geração anterior fosse tão boa estaríamos hoje no fundo do poço. Não reclamem de quem está lutando por uma sociedade melhor, mais justa, igualitária e humana.

Não desqualifique as batalhas alheias. Ouça. Reflita. Entenda que o mundo não gira em torno do seu umbigo e que, se você for mesmo uma pessoa engraçada, vai conseguir fazer uma piada sem ofender negros, homossexuais e mulheres. E, se ofender, temos sim, o direito de dizer isso. E exigir o mínimo: respeito.

Pare de olhar para trás e buscar justificativas para não mudar os seus comportamentos preconceituosos. O mundo precisa mudar. As pessoas precisam ser aceitas como são. Não compactuar com racismo, sexismo, machismo, xenofobia, LGBTfobia não é ser mimizento (essa palavra existe?), é ser humano.

O mundo está ficando chato para as pessoas que estavam destilando seus preconceitos sem serem questionadas e hoje usam justificativas como “apanhei e não morri”, “sofri bullying e estou aqui”, que ótimo. Mas quantos não estão? E desde quando ter sofrido um preconceito é motivo para desejar que os outros também sofram? É importante refletir e não aceitar as nossas próprias vivências como únicas maneiras de existir, afinal o mundo vai muito além de nossas experiências e, certamente, há quem tenha apanhado ou sofrido bullying, carregando muitos traumas.

Eu desejo que as pessoas continuem lutando por seus direitos, apontem os preconceitos e exijam uma sociedade mais justa. Se lutar contra a repressão e preconceito é mimimi estou aqui para dizer: por mais mimimi, porque ainda está pouco.

Texto publicado no blog pessoal da autora Giseli Rodrigues.

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Como melhorar a vida a dois

Se você começou a ler esse texto pensando em encontrar fórmulas prontas, pode parar por aqui. Quando se trata de relacionamento, qualquer que seja ele, não existe receita, bula, fórmula ou mágica. Existe comprometimento, vontade de fazer dar certo e muito amor. Então esse texto nem precisaria ser escrito, certo? Errado. O óbvio também precisa ser dito.

Dividir a vida com alguém é um desafio, os casais podem confirmar. Mas quando a gente se apaixona e comete a loucura de morar sob o mesmo teto, juntar as escovas de dentes e compartilhar a vida, começa a ter a real compreensão do que é um relacionamento e a ver as relações familiares sob uma nova perspectiva.

Cada um foi criado de uma maneira, são mundos distintos que se unem e, em algum momento, isso traz conflitos. Passada a paixão, as diferenças trarão conflitos. Mas se há amor e maturidade também haverá aprendizado, crescimento e consolidação da relação. De todas as coisas que lemos sobre relacionamento, a mais verdadeira e importante é que o amor se constrói no dia a dia. Todos os dias.

É fundamental expressar o que incomoda, mas essencial reconhecer que o outro não é uma extensão de si mesmo e não nasceu para suprir as suas expectativas. Pense nas coisas que realmente são importantes e que fazem diferença no dia a dia, não fique discutindo o que não é primordial. Vários relacionamentos se desgastam por pequenas discussões desnecessárias.

Tão importante quanto falar o que desagrada, é reconhecer o que é positivo. Com o passar dos anos o hábito de agradecer ao outro por pequenas gentilezas e reconhecer os méritos acaba sendo esquecido, recupere isso. Elogie, agradeça, reconheça. Não acredite que o outro já sabe o que você acha.

Estar junto precisa significar parceria, amizade, confiança e cumplicidade. E talvez esteja aqui a grande lição deste texto: isso não depende só de você. Ame, se comprometa, se dedique, demonstre amor, mas não insista em uma relação que não é recíproca. Por maior que seja o amor, não dá para amar pelos dois.

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O casal e a coxa de frango

Li, já faz muito tempo, uma história que não sei exatamente como era, mas, em resumo, dizia que um casal de idosos, juntos há mais de sessenta anos, estavam reunidos com a família para comer um frango assado desses de padaria. Quando a filha pergunta qual a parte que a mãe mais gosta ela responde que é a coxa. O marido fica surpreso, pois ela sempre comeu o peito. E ela explica que sempre comeu o peito por saber que ele preferia a coxa.

O final do texto vocês já devem imaginar: a filha fica emocionada e a moral da história é que relações bem-sucedidas são assim, um renunciando a alguma coisa pelo outro. Pois bem. Muitos devem concordar com isso, achar a história fofa e romântica, mas, sinceramente, eu não achei. Passar a vida inteira com alguém sem falar da sua preferência? Comer por anos seguidos algo que não gosta muito para satisfazer o outro? E pior: sem permitir que o outro conheça seus verdadeiros gostos?

Por que estou trazendo essa história? Porque muitas vezes tomamos decisões, não falamos a verdade, agimos para agradar o outro e não levamos em conta as nossas preferências. E isso está errado. E, se voltarmos a história do frango, os dois podiam comer felizes, já que o frango tem duas coxas! Por que dificultar a vida?

Em um relacionamento duradouro, certamente, você vai fazer coisas que não deseja, renunciar a alguma coisa, ir a lugares que não gosta, aturar um parente inconveniente. Faz parte. A vida, até mesmo solitária, tem dessas coisas. Mas daí a fazer sempre algo que você não gosta para fazer o outro feliz, sem que o outro nem saiba que você está abdicando de alguma coisa, não é um pouco demais?

Não seja essa pessoa. Seja lá qual for a coxa de frango da sua vida a dois, repense. Fale a verdade. Diga o que gosta. Você não precisa renunciar sempre. Permita que o outro também deixe de comer a coxa para te dar. Permita que o outro também demonstre carinho e cuidado por você. Relacionamento é isso: um pelo outro, não um fazendo tudo pelo outro sempre.

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Desenvolvendo a resiliência

Eu queria ter coisas bonitas e frases amorosas para escrever, mas como todas as pessoas – se não a maioria – eu ando no limite. É difícil estar vivendo num país que se tornou o epicentro da pandemia no mundo, com milhares de pessoas morrendo diariamente, pessoas próximas doentes e sem perspectiva de que as coisas melhorem em breve.

Confesso que ficar em casa é a única coisa boa disso tudo. Sinto-me segura aqui. E, como boa canceriana, permanecer em casa não é um problema, e sim um verdadeiro prazer. Nem sei como vai ser para me adaptar de novo a uma rotina de transporte público diariamente. Sofro por antecedência. Mas isso é o de menos, né? Lá na frente eu me acostumo de novo.

Todas as pessoas passam por situações difíceis e hoje estamos todos juntos passando por essa pandemia. Cada um de uma maneira e, sem dúvida, é mais traumatizante para uns do que para outros. Perdi um tio e isso me faz ter muito medo da doença. Tem gente que ficou internada ou perdeu vários familiares. E, como se tão pudesse ser pior, num país onde governantes riem das mortes, minimizam a doença, indicam remédios sem comprovação científica, bradam contra a vacina, nossa única esperança concreta até agora.

Todo dia parece o mesmo dia. Vocês têm essa sensação? A pandemia tem testado a nossa resiliência, porque a gente precisa se adaptar, fazer um esforço e seguir em frente. E ser resiliente é a única coisa que precisamos neste momento, já que não podemos ir contra tudo e todos e mudar o que está acontecendo. Mas como desenvolver a resiliência em meio a esse cenário caótico?

  1. Desabafe sobre seus sentimentos

Estamos longe, fisicamente, dos familiares e amigos, mas nada impede de pedir apoio e contar com eles para desabafar, trocar experiências e confidências. É importante ter em quem confiar e pedir ajuda de vez em quando. É uma necessidade humana se sentir amado e amparado e, principalmente numa pandemia, não dá para ficar esperando que os outros percebam nossas fragilidades e medo se muitas vezes estão distantes.

  • Tenha flexibilidade

A verdade é: não podemos mudar o cenário que estamos vivendo. Diante disso, como podemos reagir? Eu não sou uma pessoa good vibes, não estou aqui para dizer que sairemos melhores depois dessa pandemia, que é um aprendizado, que estamos vivendo uma oportunidade. Milhares de pessoas morrendo por dia. Desemprego nas alturas. Pessoas próximas adoecendo. Ou morrendo. A única coisa que podemos fazer é a nossa parte: se puder, fique em casa. Se precisar sair se proteja. Estimule a vacinação dos idosos que conhece, se vacine quando chegar sua vez. E faça com que sua casa seja um bom ambiente para trabalhar, estudar, se exercitar e passar os dias com a sua família.

  • Controle a ansiedade

Cada pessoa tem a sua própria forma de lidar com a ansiedade, mas há comprovação de que é saudável ter uma rotina. A vida lá fora está um caos e incontrolável. Crie uma rotina possível e tente incluir a prática de exercício físico, meditação, realização de algum hobby para ajudar a abstrair os problemas e enfrentar as adversidades. Ter uma alimentação equilibrada e dormir bem também são fundamentais. Mas tudo bem não conseguir fazer tudo. Faça o que for possível dentro da sua realidade. Um dia de cada vez.

  • Reconheça a sua força

Pense que ao longo da vida você passou por outras situações adversas. E sobreviveu. Esse momento sombrio, triste, incerto e caótico irá passar. E continuaremos aqui, firmes e fortes. Tudo que vivemos hoje será transformado em passado, em história que contaremos aos mais jovens.

Eu sei que a pandemia tem sido um teste para a nossa resiliência, mas mas não há outra maneira a não ser seguir em frente. Do jeito que dá. Do jeito que conseguimos. Do jeito que pudermos. Uma hora vai passar.

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